Protection — Massive Attack (1994)
O momento em que os Massive Attack deixaram de perseguir o futuro e começaram a vivê-lo.
Por Rafi Mercer
Há álbuns que se revelam de imediato e há álbuns que, aos poucos, vão fazendo parte da nossa vida. O álbum «Protection» faz parte da minha vida...
Quando foi lançado, em 1994, as expectativas já eram elevadas. Três anos antes, os Massive Attack tinham lançado «Blue Lines», um álbum hoje amplamente reconhecido como um dos mais importantes da era moderna no Reino Unido. Este álbum fundia hip-hop, soul, dub, reggae e música eletrónica numa mistura que parecia totalmente nova. O desafio era óbvio: o que viria a seguir?

A resposta não era mais energia.
Era mais profundidade.
Em vez de se expandirem para o exterior, os Massive Attack voltaram-se para o interior. «Protection» é mais tranquilo, mais reflexivo e emocionalmente mais preciso do que o seu antecessor. As batidas mantêm-se, mas já não conduzem a música. Em vez disso, criam espaço para que o estado de espírito, a textura e a atmosfera surjam.
A faixa-título continua a ser uma das gravações mais marcantes da década. Com a participação de Tracey Thorn, a canção assenta numa ideia simples, mas poderosa: a confiança. A voz de Thorn mantém-se discreta ao longo de toda a canção. Ela nunca recorre ao drama. O resultado é uma interpretação que parece mais humana do que encenada. Trinta anos depois, continua a soar notavelmente fresca.
Ao longo do álbum, os Massive Attack demonstram uma contenção extraordinária. Faixas como «Weather Storm», «Sly», «Three» e «Eurochild» não são construídas em torno de ganchos óbvios ou momentos explosivos. Em vez disso, desenrolam-se gradualmente, recompensando a atenção e as audições repetidas. As camadas surgem discretamente. Os ritmos mudam subtilmente. Pequenos detalhes vão-se revelando ao longo do tempo.
A produção continua a ser espantosa.
Trabalhando em conjunto com colaboradores como Craig Armstrong, o grupo criou um som que transmite uma sensação ao mesmo tempo íntima e ampla. As cordas flutuam pela mistura. Os motivos de piano surgem como memórias distantes. As linhas de baixo conferem calor sem se sobreporem. Cada som parece ter sido cuidadosamente colocado.
O que mais se destaca hoje é o quão moderno o álbum ainda parece.
Muitos álbuns de meados da década de 1990 são imediatamente reconhecíveis como produtos da sua época. «Protection» consegue, em grande medida, evitar essa armadilha. A sua influência é percetível no R&B alternativo, na música eletrónica downtempo, nas bandas sonoras cinematográficas e em inúmeros artistas que se seguiram. No entanto, o álbum em si nunca parece desatualizado.
Parte dessa longevidade deve-se ao enfoque emocional do álbum.
Apesar de todas as discussões sobre o trip-hop, o som de Bristol e as técnicas de produção, «Protection» centra-se, em última análise, nas relações humanas. Refúgio. Vulnerabilidade. Distância. Intimidade. Estes temas percorrem discretamente quase todas as faixas. A música nunca impõe essas emoções ao ouvinte. Limita-se a criar as condições para que elas existam.
Talvez seja por isso que o álbum continua a ter um impacto tão forte nos ouvintes, décadas mais tarde.
Compreende que nem todos os sentimentos exigem um gesto grandioso.
Por vezes, os momentos mais marcantes surgem na penumbra. Através de uma voz que mal ultrapassa um sussurro. Através de uma linha de baixo que parece vir de outra divisão. Através da sensação de regressar a casa muito depois de o barulho do dia ter desaparecido.
A proteção não foi concebida para dominar uma divisão.
Foi concebido para ser habitado por uma pessoa.
E isso continua a ser a sua maior conquista.
Perguntas rápidas
O álbum «Protection» é considerado um álbum de trip-hop?
Sim, embora o rótulo apenas conte parte da história. O álbum combina elementos de hip-hop, dub, soul, música eletrónica e pop atmosférico, resultando em algo mais abrangente do que a descrição do género sugere.
Quem canta na faixa-título?
A faixa-título conta com a participação de Tracey Thorn, dos Everything But The Girl, cuja interpretação vocal discreta se tornou um dos momentos marcantes do álbum.
Em que é que o «Protection» difere do «Blue Lines»?
Enquanto«Blue Lines» transmite uma sensação de pioneirismo e abertura ao mundo, «Protection» é mais reflexivo, atmosférico e centrado nas emoções. Dá prioridade ao ambiente e ao espaço em detrimento da inovação apenas por si mesma.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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