Serge Gainsbourg — Histoire de Melody Nelson (1971)
Rafi Mercer reflete sobre A História de Melody Nelson, a obra-prima inesquecível de Serge Gainsbourg, de 1971 — um álbum curto, cinematográfico e inesquecível que ainda hoje parece estar à frente do seu tempo.
Por Rafi Mercer
Há álbuns que não entram na nossa vida, mas sim que se infiltram nela — silenciosamente, de forma estranha, sem explicação. «Histoire de Melody Nelson» é um desses discos raros que mais parece não ter sido nós a descobri-lo, mas sim ele a ter-nos descoberto. Não sei dizer-vos quando o ouvi pela primeira vez. Só te posso dizer que, assim que me encontrou, ficou. Tornou-se um daqueles álbuns que ficam gravados na arquitetura da memória — um clássico para ouvir no sentido mais verdadeiro da palavra: curto, cinematográfico, irresistível, permanentemente vivo na imaginação.
Sempre que volto a ouvi-lo, fico impressionado com o quão pouco ele tenta impressionar. Não há excessos, nem fanfarronice, nem qualquer tentativa de oprimir. Em vez disso, desenrola-se como um filme em penumbra: sete faixas, cada uma delas uma cena; trinta minutos que se comportam como um sonho do qual não se consegue livrar completamente. A voz de Gainsbourg surge como um murmúrio, quase conspiratório, mais como um narrador do que como um cantor. Ele fala em vez de cantar a plenos pulmões, convidando-nos a aproximar-nos — mais perto do que esperamos, mais perto do que nos sentimos totalmente à vontade.

E depois há a orquestração de Jean-Claude Vannier, que continua a ser uma das utilizações mais surpreendentes das cordas em qualquer disco do século XX. Aquelas linhas de baixo graves que percorrem a mistura como um pulso. Aquelas cordas arrebatadoras e turbulentas que sobem e descem como se o tempo estivesse a passar por cima de nós. Aqueles momentos de coro que parecem um aviso estranho e sagrado. Este é um álbum construído não sobre a melodia, mas sobre a atmosfera — e, no entanto, cada segundo é melódico à sua maneira.
É um álbum de bar de audição antes mesmo de os bares de audição existirem.
Um álbum que transforma o ambiente.
Um álbum que define o estado de espírito.
Um mundo completo.
Gainsbourg compreendeu algo essencial: que o espaço é tão importante quanto o som. «Melody Nelson» respira. Os seus silêncios estão carregados de significado. Os seus arranjos nunca são confusos. O disco confia que o ouvinte se deixe envolver — e essa confiança faz parte da sua magia. É o oposto da saturação moderna. É precisão. Intenção. Economia. Tudo reduzido ao seu âmago emocional.
E depois, claro, há a própria Melody: em parte ficção, em parte musa, em parte sombra de Jane Birkin, em parte símbolo de uma espécie de inocência perigosa que Gainsbourg tanto admirava como temia. A história é provocadora, sim, mas a forma como é contada é delicada, quase estranhamente terna. Este é o álbum em que a máscara cai — em que o provocador deixa a vulnerabilidade transparecer.
Para mim, continua a ser um dos melhores álbuns para «começar o dia». Tem aquela capacidade extraordinária de renovar o ambiente, a mente, o momento. Se o ouvirmos em volume baixo de manhã, brilha como o grão quente de um filme. Se o ouvirmos em volume alto mais tarde, transforma-se em algo mais — uma tempestade aveludada, uma pequena ópera de saudade.
O que faz dele um clássico não é a sua notoriedade, nem sequer a sua inovação (embora estivesse muito à frente do seu tempo). É o ambiente que cria — um ambiente que reconhecemos, mesmo que não consigamos explicar porquê. É a forma como deixa um aroma persistente no ar. É o facto de terminar antes do que gostaríamos, e é por isso que o ouvimos outra vez. E outra vez. E outra vez.
Alguns álbuns são acontecimentos.
Outros são memórias.
«Histoire de Melody Nelson» é ambas as coisas — uma obra-prima de meia hora que, de alguma forma, continua a ser maior do que ela própria.
Se já o adoraste, vais adorá-lo para sempre.
Se nunca o ouviste, há um espaço à tua espera — com luzes suaves, tons aveludados, um pouco perigoso, silenciosamente belo. Basta ouvir uma vez e vais compreender.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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