Sister Nancy – One Two (1982)
Por Rafi Mercer
Há momentos na música em que uma voz não se limita a ecoar por uma sala; ela abre caminho para um futuro. Em 1982, num estúdio de Kingston, a Sister Nancy fez exatamente isso. «One Two», o seu álbum de estreia, foi gravado sem grande alarido, lançado pela editora Techniques e, inicialmente, passou despercebido no meio da enxurrada de discos jamaicanos que chegavam ao mercado. No entanto, das suas ranhuras surgiu «Bam Bam», uma faixa tão intemporal, tão sampleada e tão entrelaçada no tecido da cultura do reggae e do hip hop, que transformou um disco modesto num monumento.
A Sister Nancy — cujo nome de nascimento era Ophlin Russell — foi a primeira mulher a levar a sério o microfone na cena dancehall da Jamaica. Ela não estava apenas de passagem; estava a marcar o seu território num espaço quase inteiramente dominado por homens. A importância disso não pode ser subestimada. Imaginem os sistemas de som de Kingston no início dos anos 80: colunas empilhadas até ao teto, selectores à procura de ritmos, DJs a fazer toasts sobre os riddims como atletas no ringue. Foi nesse cenário que a Nancy entrou, com a sua forma de cantar descontraída, sem pressa e direta. A sua voz não se esforçava por provar nada; simplesmente soava com clareza, confiança e alegria.
O álbum abre com «One Two», uma faixa que define o tom: ritmos minimalistas, um baixo constante e a voz de Nancy a deslizar pelo ritmo. Aqui não há excessos. A produção, a cargo de Winston Riley, é essencial no melhor sentido da palavra — uma estrutura criada para que a voz brilhe. Segue-se «Bam Bam». Baseada no riddim «Stalag», uma das bases musicais mais versionadas do reggae, Nancy transforma-a numa declaração. O seu refrão — brincalhão, desafiador, inesquecível — tornou-se um hino que sobreviveria ao seu momento. «Bam Bam» foi sampleada e referenciada por todos, desde Lauryn Hill a Kanye West, de Jay-Z a Lizzo, levando o tom de Nancy para novas eras e novos géneros.
Mas o álbum «One Two» é mais do que «Bam Bam». Faixas como «Ain’t No Stopping Nancy» e «Transport Connection» demonstram a sua capacidade de alternar entre a determinação e a doçura, entre a afirmação e a melodia. Há humor na sua forma de falar, precisão no seu timing e uma compreensão instintiva de como acompanhar um ritmo sem o sobrecarregar. Ela faz do espaço o seu aliado. Enquanto muitos DJs enchiam a batida com conversa, a Nancy sabia quando se conter, quando soltar uma palavra e deixar que a linha de baixo falasse por si.
Ao ouvi-lo agora, o que se destaca é a intimidade do disco. Não está encharcado de reverberação nem de efeitos de estúdio pesados. A bateria é firme, o baixo constante, as notas do órgão pontuais. É música concebida para sistemas de som, projetada para se propagar ao ar livre; no entanto, em vinil, num bom sistema, transforma-se noutra coisa: tensa, precisa, magnética. Num par de colunas bem afinadas, o baixo não se impõe; respira. A voz da Nancy, ligeiramente rouca, destaca-se com honestidade.
Na secção de audição «Tracks & Tales», o «One Two» desempenha um papel fundamental. Lembra-nos que a audição profunda não tem a ver com género ou prestígio, mas sim com presença. Um disco de reggae pode ter tanto peso num bar de audição como uma suíte de Coltrane ou um ciclo ambiente de Eno, se for tocado com cuidado. Põe a tocar «Bam Bam» num bar e sentes toda a linhagem da cultura dos sound systems a vibrar pela sala. Toca «Ain’t No Stopping Nancy» e ouves as raízes do empoderamento, uma voz a abrir o seu próprio espaço.
A própria Nancy não prosseguiu com uma longa carreira discográfica. Depois de «One Two», afastou-se da indústria musical, dedicando-se ao trabalho e à família, enquanto a sua única faixa se tornava um fenómeno global quase sem que ela se apercebesse. Só mais tarde é que o reconhecimento regressou, à medida que as gerações mais jovens redescobriram o disco e o elevaram ao estatuto de clássico. Há algo de poético nisso: uma voz que outrora soava como um ato de rebeldia num ambiente dominado pelos homens, tornando-se um hino à resiliência e à independência em todo o mundo.
Para quem está a construir uma coleção de discos para ouvir em casa, o «One Two» é essencial, não só pela sua história, mas também pelo seu som. É o tipo de disco que transforma uma divisão — com graves tão firmes como o chão e uma voz tão nítida como um raio de luz. Mostra como ingredientes mínimos, trabalhados com convicção, podem criar uma arquitetura intemporal.
Porque é que continua a perdurar? Porque a Nancy não se limitou a cantar; ela encarnou a música. Porque a sua voz transmitia a autoridade de quem se aventurava em território desconhecido. Porque os ritmos são tão puros e tão essenciais que parecem ser o modelo para tudo o que se seguiu no hip hop, no dancehall e para além disso. Se o ouvirmos hoje, quarenta anos depois, o disco continua a parecer fresco, continua a parecer necessário.
Tarde da noite, num bar onde se ouve música, «One Two» não se limita a ser a banda sonora da noite; conta uma história sobre a cultura dos sistemas de som, sobre género, sobre resiliência e sobre a forma como a música viaja mais longe do que qualquer pessoa naquele estúdio de Kingston poderia ter imaginado. E, nesse sentido, é uma obra de arte tão importante como qualquer clássico de jazz ou obra-prima de música ambiente na prateleira.
Por isso, quando a agulha tocar o disco e a Nancy cantar «Bam Bam», saiba que não está apenas a ouvir um sucesso. Está a ouvir os alicerces de uma tradição, um som que redesenhou o panorama, uma voz que abriu caminho para o futuro.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais artigos da secção «Tracks & Tales», subscreva ou clique aqui para saber mais.