Stepping into Tomorrow – Donald Byrd (1974)

Stepping into Tomorrow – Donald Byrd (1974)

A Geometria do Groove

Por Rafi Mercer

Quando «Stepping into Tomorrow» foi lançado, em 1974, Donald Byrd já não seguia as tendências — era ele quem as definia. Tinha encontrado algo único na parceria com os irmãos Mizell: uma espécie de alquimia sonora que transformava o ritmo em arquitetura e a melodia em ar. Se «Black Byrd» foi a descolagem e «Street Lady» o voo através da luz do sol, «Stepping into Tomorrow» parece uma ascensão — mais suave, mais profunda, quase cósmica.

O álbum começa com a faixa-título, «Stepping into Tomorrow», e, logo desde os primeiros compassos, tudo parece perfeito. Os acordes do Rhodes pairam como neblina, a linha de baixo é enxuta e hipnótica, a percussão faz-nos cócegas em vez de nos atingir. O trompete de Byrd entra como um feixe de luz — puro, metálico, sem esforço. Há groove, sim, mas também geometria. Cada som encaixa-se exatamente onde deve estar. É o tipo de equilíbrio que só resulta de uma confiança total entre o artista e o produtor.

Larry e Fonce Mizell foram visionários nesse aspeto. Não encaravam o estúdio como um espaço para documentar; encaravam-no como um instrumento. A sobreposição de camadas é requintada — os suaves coros de Kay Haith e do próprio Larry Mizell, os detalhes discretos de percussão de Mayuto Correa, a bateria de Harvey Mason nítida como seda. É música construída tanto a partir da textura como do tom.

Segue-se «Design a Nation», uma faixa alegre e animada, com um arranjo de metais de simetria quase arquitetónica. Depois vem «We’re Together», a faixa mais radiante do álbum, onde o trompete de Byrd parece uma voz da razão num mundo que avança demasiado depressa. Há algo de profundamente enraizado no seu fraseado — uma espécie de calma no meio do movimento.

O ambiente torna-se onírico em «Think Twice», sem dúvida a faixa mais marcante do álbum, sobretudo porque se tornou um dos grooves mais sampleados da história do hip hop. Assenta naquela linha de baixo inconfundível — profunda, paciente, circular — e numa linha vocal subtil que parece flutuar ligeiramente acima do ritmo. É uma aula magistral de contenção. Nada mais do que o necessário. É o groove que fala por si. Décadas mais tarde, ganharia nova vida nas mãos dos Main Source, de Erykah Badu e de inúmeros produtores — prova do seu ritmo eterno.

«You Are the World» e «I Love the Girl» conduzem o som para uma direção mais cósmica — smooth jazz, soul e funk entrelaçados de forma tão harmoniosa que se tornam um todo. Não há exibicionismo, apenas fluidez. Byrd era um mestre em deixar o seu trompete respirar; cada nota parece necessária, cada pausa deliberada.

No bar de audição, este álbum é aveludado. A faixa de abertura dá a sensação de entrar numa luz acolhedora; o ritmo é subtil, mas imponente, daqueles que fazem a sala balançar sem esforço. Os hi-hats sussurram, o baixo zumbe como uma corrente oculta por baixo da conversa e o trompete de Byrd entrelaça-se no ar como um fio de ouro. É o tipo de disco que recalibra a energia — depois de algo pesado, depois do ruído, depois da velocidade.

Do ponto de vista cultural, *Stepping into Tomorrow* foi uma declaração de que o jazz não precisava de ser salvo — precisava de espaço. Byrd foi um dos primeiros veteranos da Blue Note a demonstrar que a produção moderna podia coexistir com a mestria musical, que o groove e o intelecto não eram opostos. Na altura, lecionava na Howard University, orientando jovens músicos e mostrando-lhes que o jazz podia falar do presente, em vez de se agarrar ao passado. Os seus alunos — entre os quais os Blackbyrds — iriam levar essa mensagem adiante.

Há algo de profético neste disco, agora. Se ouvirmos com atenção, conseguimos perceber as bases do neo-soul, do acid jazz e até da cultura beat moderna. Está tudo lá: o equilíbrio, o calor, a confiança. Mas, ao contrário de tantos discos posteriores que perseguem a nostalgia, «Stepping into Tomorrow» continua a soar vivo. Não olha para trás — olha para a frente.

Quando toco isto no bar, costumo deixá-lo tocar do início ao fim. Parece-me errado interromper. Cada faixa dá lugar à seguinte, como a luz que se reflete no vidro — quente, paciente, precisa. É jazz despojado de ego, funk elevado à categoria de arquitetura. Não se trata tanto de ouvir, mas sim de mergulhar nele.


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