Steve Reich – Música para 18 Músicos (1978)
Por Rafi Mercer
Quando os primeiros pulsos de «Music for 18 Musicians» começam, é como se o próprio ar mudasse. Um padrão de instrumentos de baqueta cria uma grelha cintilante, as vozes e os sopros entrelaçam-se, e surge um pulso constante que parece menos um ritmo imposto e mais uma respiração descoberta. Isto não é jazz, nem música clássica, nem música ambiente. É o mundo do minimalismo de Steve Reich, onde a repetição se transforma, onde o tempo se estende e a perceção se altera, onde a música se torna ambiente. Lançada em 1978, a peça continua a ser uma das obras marcantes da composição do século XX e uma das experiências auditivas mais profundas já gravadas.
Reich vinha a desenvolver a sua linguagem musical desde a década de 1960, fascinado por loops de fita, phasing e pela ideia de que pequenas variações na repetição podiam gerar uma imensa complexidade. Obras como «It’s Gonna Rain» e «Drumming» já o tinham consagrado como uma voz de referência no minimalismo americano. Mas «Music for 18 Musicians» era diferente. Escrita para um conjunto de câmara composto por pianos, marimbas, xilofones, clarinetes, cordas, vozes e percussão, era mais longa, mais rica e mais ressonante. Tirou o minimalismo das margens experimentais e levou-o para um espaço que parecia simultaneamente meditativo e monumental.
A estrutura é aparentemente simples. Onze acordes são apresentados no início, cada um sustentado durante tempo suficiente para se fixar no ouvido, sendo depois explorados um a um, transformados em padrões rítmicos e melódicos, antes de o ciclo recomeçar. O ritmo nunca pára. É conduzido pelos pianos e pelas marimbas, um batimento cardíaco constante em torno do qual tudo o resto se move. Os instrumentos entram e desaparecem, as vozes cantarolam e ecoam, os clarinetes elevam-se como a respiração, as cordas cintilam. À primeira vista, pode parecer estático, mas se ouvirmos com atenção, percebemos uma mudança constante, variações subtis que criam ondas de cor. A música não progride como uma sinfonia; flui como o tempo, como a maré, como a luz que se move por uma sala.
Em vinil, o efeito é extraordinário. O calor do analógico suaviza as arestas, fazendo com que as repetições brilhem em vez de ofuscarem. Cada instrumento encontra o seu espaço no campo estéreo, criando profundidade e movimento. Quando tocada num bar de audição, transforma completamente a atmosfera. A conversa desvanece-se no silêncio, não porque a música o exija, mas porque a sua presença é tão envolvente. Os ouvintes recostam-se, fecham os olhos e as respirações sincronizam-se com o ritmo. O tempo abranda, expande-se, dissolve-se. Podem passar horas na sua companhia e, no entanto, quando termina, fica-se com a sensação de ter sido transportado para algum lugar, de ter viajado sem se mover.
O que torna «Music for 18 Musicians» tão poderosa é a forma como envolve a perceção. A repetição, aqui, não é monotonia, mas sim revelação. Ao ouvir os padrões repetirem-se, percebe-se as mais pequenas variações: a forma como uma nota entra ligeiramente mais cedo, a forma como uma voz se eleva em contraste com uma figura de marimba, a forma como a ressonância se acumula. Ensina o ouvido a prestar atenção, a reparar, a descobrir. É música não só para ouvir, mas para habitar, música que cria a sua própria arquitetura de tempo e espaço.
A obra revelou-se também surpreendentemente influente. Antecipou a música ambiente, inspirando Brian Eno e gerações de músicos eletrónicos. Moldou a nova composição clássica, influenciando desde John Adams até aos minimalistas contemporâneos. Chegou mesmo a ter repercussões na música popular, com os seus pulsos a refletirem-se nos ritmos do house e do techno. No entanto, apesar da sua influência, continua a ser única. Ninguém mais escreveu nada semelhante, e nenhuma interpretação da obra é exatamente igual à outra.
Para a cultura da escuta, é essencial. Nos bares onde o som é sagrado, «Music for 18 Musicians» é mais do que um álbum; é um ritual. Basta colocar a agulha no disco e o ambiente transforma-se. A peça cria uma comunidade sem palavras, uma presença partilhada sem espetáculo. Lembra-nos que ouvir não é passivo, mas sim ativo, que a repetição pode abrir portas e que a paciência pode revelar maravilhas.
Mais de quatro décadas depois, não perdeu nada da sua força. Continua a parecer moderna, continua a parecer viva, continua a dar a sensação de ser um vislumbre das estruturas profundas do som. Ouvir esta obra é vivenciar o tempo de forma diferente, é lembrar-nos de que a música não é apenas expressão, mas também ambiente; não é apenas um acontecimento, mas também um espaço. É por isso que deve fazer parte da coleção de qualquer bar dedicado à audição séria e que perdura como uma das grandes obras do século XX.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais histórias da rubrica «Tracks & Tales», subscreva aqui, ou clique aqui para ler mais.