Terry Riley – In C (1968)
Por Rafi Mercer
O som de «In C» começa quase como um tom de teste. Um pulso constante na nota C, tocada ao piano ou num instrumento de baqueta, marca o ritmo como um metrónomo. À sua volta, entram outros instrumentos, cada um tocando frases musicais curtas, repetindo-as enquanto quiserem antes de seguirem em frente. O resultado é uma textura que é ao mesmo tempo simples e complexa, familiar e estranha. Desta pulsação emerge uma nuvem de som, mutável, cintilante, que nunca é igual a si própria. Gravada em 1968, «In C», de Terry Riley, tornou-se a primeira grande manifestação do minimalismo americano, uma peça que se afastou tanto do formalismo europeu como da improvisação jazzística, para criar algo comunitário, aberto e infinitamente adaptável.
A ideia de Riley era aparentemente radical. Ele escreveu 53 padrões curtos, cada um com um ou dois compassos, todos na tonalidade de Dó. As instruções eram simples: os músicos começam no início, repetem cada frase quantas vezes quiserem e, quando estiverem prontos, passam para a seguinte. O conjunto mantém-se mais ou menos em sincronia, guiado pelo ritmo constante, mas não há duas interpretações iguais. O resultado é uma música que oscila entre a composição e a improvisação, a ordem e a liberdade, a disciplina e a brincadeira. É democrática no sentido mais verdadeiro da palavra: todos os músicos são iguais, todas as decisões moldam o todo.
A primeira gravação, em 1968, contou com onze músicos, mas, desde então, a peça tem sido interpretada por grupos que vão desde quatro até cem músicos. Cada interpretação soa diferente, mas a essência mantém-se. O ritmo é constante, os padrões são familiares, mas a sobreposição de camadas cria variações infinitas. Por vezes, a música cintila como a luz na água; outras vezes, avança como uma máquina; outras ainda, flui como um canto. A sua genialidade reside na capacidade de ser simultaneamente estática e dinâmica, de criar estabilidade através da mudança.
Em vinil, a gravação de 1968 capta a frescura da ideia, o som de músicos a explorarem um território desconhecido. Os timbres dos instrumentos de sopro, das cordas, do piano e da percussão fundem-se uns nos outros, com o ritmo constante por baixo. Não é um som polido, mas sim vivo, um testemunho de descoberta. Gravações posteriores oferecem texturas diferentes, desde conjuntos amplificados a adaptações eletrónicas, mas a original continua a ser cativante na sua crueza. Tocada num bar de audição, «In C» cria uma sensação de imersão. O ritmo torna-se o batimento cardíaco da sala, os padrões a subir e a descer como uma respiração coletiva. A conversa abranda, os ouvidos sintonizam-se com os detalhes em constante mudança, o tempo alonga-se. É menos como ouvir uma atuação e mais como entrar num ritual.
O que torna «In C» tão importante não é apenas o seu som, mas também a sua ideia. Riley rompeu com o modelo do compositor como ditador, oferecendo, em vez disso, um quadro que convidava à colaboração, à variação e ao acaso. A peça pode ser interpretada por profissionais ou amadores, em instrumentos tradicionais ou eletrónicos, em salas de concerto ou ao ar livre. É música como processo, música como comunidade. Ao fazê-lo, Riley antecipou não só a ascensão do minimalismo, mas também o espírito participativo da música experimental e eletrónica posterior.
Para uma escuta profunda, «In C» é um lembrete de que a simplicidade pode ser profunda. O pulso constante em Dó é hipnótico, cativando o ouvido, enquanto os padrões sobrepostos convidam à concentração. Começamos a ouvir detalhes que, de outra forma, nos escapariam: a ligeira variação no ataque, a forma como duas linhas se contrapõem, a ressonância dos instrumentos que se fundem. É uma música que ensina a prestar atenção, que transforma a repetição numa revelação.
Meio século depois, «In C» continua infinitamente atual. Cada nova interpretação renova-a, cada nova gravação acrescenta mais uma camada à sua história. No entanto, a sua essência permanece inalterada: o ritmo constante, o processo democrático, o som de muitos indivíduos que se fundem num só. Basta colocar a agulha no disco para nos lembrarmos de que a música pode ser simultaneamente estrutura e liberdade, pessoal e comunitária. Não é apenas uma peça para ouvir, mas uma peça para habitar.
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