The Mountain — Gorillaz (2026)

The Mountain — Gorillaz (2026)

Quinze faixas, oito países, duas décadas de gravações — e a maioria das vozes que nelas se ouvem pertence a pessoas que já faleceram.

Por Rafi Mercer

Há um órgão Hammond num estúdio junto à Portobello Road que não pode sair do edifício. É demasiado frágil para viajar. Albarn comprou-o num leilão — lote 105, daí o nome da canção dos Blur — e tem permanecido lá desde então. Esse órgão é o princípio orientador de toda a sala. O Estúdio 13 foi construído por Albarn, em colaboração com Tom Girling e Jason Cox, para ser o mais diferente possível de um estúdio comercial, tendo sido depois preenchido com a coleção de equipamento mais estranha que alguém alguma vez reuniu. Um teclado didático Wurlitzer. Uma kalimba. Um Stylophone de baixo. Um brinquedo infantil para treino da fala que se tornou a principal fonte sonora num remix dos Massive Attack. Nada ali cumpre a função para a qual foi concebido. E é precisamente essa a ideia.

Após vinte e cinco anos a aplicar esse método, ele chega até aqui.

O nono álbum dos Gorillaz foi lançado a 27 de fevereiro pela sua própria editora, a Kong. Originalmente previsto para março, o lançamento foi antecipado. Basta olhar para as datas de gravação e o padrão torna-se evidente: de 2001 a 2010 e, depois, de 2024 a 2025. Dois períodos, separados por catorze anos. Um arquivo foi aberto e algo foi construído a partir do que já lá se encontrava.

O que já lá estava eram pessoas que, entretanto, já partiram. Dennis Hopper na faixa-título. Bobby Womack e Dave Jolicoeur, dos De La Soul, em «The Moon Cave». Tony Allen. Mark E. Smith, a gritar com toda a força no silêncio de «Delirium». Isto não é uma lista de convidados. É uma sala onde os mortos ainda estão presentes, o que torna a experiência de estar lá muito diferente.

Tanto Albarn como Hewlett perderam os seus pais no verão de 2024, enquanto o álbum estava a ser gravado, e o álbum acabou por se centrar na morte, no luto e na vida após a morte. O próprio relato de Albarn é bastante claro — contém luto, é pessoal, destina-se a todos. Hewlett descreveu como o Black Thought apareceu para trocar versos com o Jolicoeur e simplesmente ter uma conversa com o seu amigo, que está noutro lugar. Essa frase diz mais do que a maioria dos elogios fúnebres.

Depois, a Índia, que é onde o som vive. Mumbai. Jaipur. Rishikesh. Amritsar. Haridwar. Os ghats em Varanasi. Anoushka Shankar. Os irmãos Bangash no sarod. Ajay Prasanna no bansuri. O raciocínio de Albarn era que, para criar algo de qualidade, é preciso ir a um lugar onde nunca se esteve, em vez de ficar sentado num estúdio em Londres ou em Los Angeles. O homem que reuniu uma sala cheia de instrumentos para os utilizar de forma errada, continuando a recusar a forma correta de tocar, já na casa dos cinquenta.

Tony Allen, na canção «The Hardest Thing», diz em iorubá: «Oh, acorda, minha querida.» Dois minutos e dezoito segundos. Já fazia quatro anos que ele tinha falecido quando o disco foi lançado.

Sessenta e seis minutos, quinze canções. Não é um álbum que se preste à reprodução aleatória. A sequência das faixas conduz a narrativa — o luto, depois a viagem, depois algo que se resolve sem fingir ser uma resolução — e, se retirarmos faixas, ficamos apenas com fragmentos. Este é um álbum para um lado inteiro de um disco e uma porta fechada. O que é, mais ou menos, o argumento que toda esta publicação pretende defender.

A revista Uncut atribuiu-lhe uma classificação de 90 e descreveu-o como o ano sabático de Damon na Índia, onde a morte nunca soou tão alegre. A revista Clash salientou que o álbum se caracteriza pela contenção e coesão, com a colaboração a fazer parte integrante do seu âmago, em vez de ser algo acrescentado à última da hora. Trinta mil exemplares vendidos na semana de lançamento, o maior lançamento independente do ano no Reino Unido, certificação «Silver» em julho e o sétimo lugar na Billboard 200 — o sexto top 10 americano da banda.

O que nos leva de volta ao órgão que não pode sair da sala. Há coisas que ficam porque são demasiado frágeis para serem movidas. Há vozes que ficam pela mesma razão. O disco sabe a diferença entre «manter» e «reter», e dedica uma hora à segunda.

Perguntas rápidas

Por que é que a série «The Mountain» apresenta tantos artistas que já faleceram?

O álbum baseia-se em sessões gravadas entre 2001 e 2010, bem como em 2024 e 2025. Dennis Hopper, Bobby Womack, Dave Jolicoeur, Tony Allen e Mark E. Smith aparecem todos nesse arquivo anterior, e a sua presença molda o tema central do álbum: a morte e a vida após a morte.

Onde foi gravado?

O Studio 13 em Londres e Devon, além de locais por toda a Índia, incluindo Mumbai, Jaipur, Rishikesh, Varanasi e Amritsar, com sessões adicionais em Miami, Los Angeles, Nova Iorque e noutros locais.

Vale a pena jogar um título com lançamento previsto para 2026 numa consola adequada?

Qualquer disco cuja sequência de faixas tenha significado merece ser ouvido na íntegra num bom equipamento. A duração e a ordem das faixas desempenham aqui um papel fundamental, o que corresponde exatamente à finalidade para a qual uma sala de audição foi concebida.


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