This Heat – Deceit (1981)
Por Rafi Mercer
A bateria rufa com insistência marcial, as guitarras ressoam com um som metálico, as vozes gritam em fragmentos que parecem mensagens enviadas de um bunker. «Deceit», lançado em 1981, foi o único álbum de estúdio completo do trio londrino This Heat e continua a ser um dos testemunhos mais surpreendentes da vanguarda experimental do pós-punk. É um disco forjado na paranóia, em ritmos fragmentados e em visões apocalípticas, mas é meticulosamente trabalhado, com o seu caos sustentado pela precisão. Ouvir este álbum é como estar à beira do colapso, onde cada som pode ser o último.
Gravado num antigo frigorífico de carne transformado em estúdio, Deceit capta uma atmosfera que combina claustrofobia e criatividade. Os loops de fita gaguejam, os sons eletrónicos gemem, os ritmos fragmentam-se e reformam-se. Músicas como «Cenotaph», «SPQR» e «Independence» transbordam de urgência política, confrontando a ansiedade nuclear e a fragilidade da civilização. No entanto, por baixo do ruído, existe uma estrutura: a mestria musical da banda é extremamente precisa, cada ruptura é calculada, cada textura é deliberada. O resultado é um som que parece improvisado, mas exato; caótico, mas controlado.
No vinil, a densidade é palpável. Os pratos ressoam como vidro, o baixo vibra como motores, as vozes sobressaem na mistura como alarmes. O calor analógico apenas intensifica o impacto, fazendo com que o caos pareça humano em vez de mecânico. Num bar de audição, o disco é avassalador — mas não apenas pelo volume. A sua urgência é contagiante, a sua paranóia envolvente, a sua insistência inegável. É música que exige atenção coletiva, mesmo que o que ofereça em troca seja desconforto.
Deceit não foi um sucesso comercial, mas a sua influência tem sido imensa. A sua fusão entre a agressividade do pós-punk e a experimentação vanguardista abriu caminho para o noise rock, o industrial e inúmeras vertentes da música experimental que se seguiram. Continua a ser uma referência do que significa fazer música que confronta em vez de consolar, que exige em vez de acalmar.
Colocar a agulha em «Deceit» é entrar num momento urgente da história, que hoje parece assustadoramente relevante. É um disco que prova que ouvir pode ser perigoso, que o som pode perturbar tanto quanto acalmar, que a música pode ser simultaneamente profecia e protesto.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais histórias da rubrica «Tracks & Tales», subscrevaou clique aqui para ler mais.