Tricky – Maxinquaye (1995)

Tricky – Maxinquaye (1995)

Por Rafi Mercer

Há álbuns que chegam tão discretamente que quase passam despercebidos, mas que, mesmo assim, mudam tudo. «Maxinquaye» é um desses álbuns. Lançado em 1995, o álbum de estreia de Tricky não se limitou a expandir as possibilidades do trip-hop — destruiu completamente as fronteiras do género. Era hip-hop desprovido de arrogância, música soul banhada em distorção, uma espécie de canção de embalar industrial que sussurrava em vez de gritar. Mas, para compreender o álbum, é preciso primeiro compreender o seu nome, a sua capa e a estranha beleza do mundo que criou.

O título, «Maxinquaye», é uma palavra inventada por Tricky. É uma homenagem — em memória da sua mãe, Maxine Quaye, que faleceu quando ele tinha quatro anos. Ela era uma poetisa, uma sonhadora, um fantasma que permanecia na sua imaginação, e o álbum tornou-se tanto uma homenagem como uma sessão espírita. É menos um disco sobre a perda do que um disco assombrado por ela. Cada nota transmite a sensação de uma voz a que já não se consegue chegar, mas que, mesmo assim, não se consegue deixar de ouvir.

A capa do álbum conta a mesma história em silêncio. Um retrato em grande plano da parceira e colaboradora de Tricky, Martina Topley-Bird, olha diretamente para o ouvinte — confiante, etérea e totalmente humana. Durante anos, muitos presumiram que era o próprio Tricky com maquilhagem; a androginia não era acidental. Ele queria esbater a identidade, desafiar a forma como olhamos para a masculinidade, para o eu, para o som. A arte diz o que a música diz: nada aqui é fixo. Género, estilo musical e até mesmo o luto entram e saem de foco.

E o som — é todo fumo e pulsação. «Overcome» abre a porta com uma ameaça silenciosa: a voz de Martina flutua através da reverberação enquanto as confissões sussurradas de Tricky se arrastam por baixo. «Hell Is Round the Corner» sampleia Isaac Hayes, mas abranda-o até ficar lento como melado — um batimento cardíaco de paranóia e sedução. «Ponderosa» parece um sonho febril; «Aftermath» é a manhã seguinte. Cada faixa vive entre o sonho e a decadência.

A genialidade de «Maxinquaye» reside na forma como o álbum se escuta a si próprio. Nada parece ter sido produzido no sentido convencional; dá a sensação de ter sido construído a partir da atmosfera. Ouvem-se o espaço, o chiado, a imperfeição — e, no meio disso tudo, a intimidade. Num bom sistema de som, o álbum revela as suas camadas: graves como nevoeiro, detalhes percussivos nos agudos a cintilar como faíscas, vozes que pairam logo abaixo da superfície. Não é um álbum para ouvir em volume alto. É um álbum para deixar respirar.

A colaboração com Martina Topley-Bird define o tom do álbum. A voz dela transmite tanto inocência como sabedoria — não é nem a voz principal nem o coro, mas sim uma parceira em pé de igualdade. Os dois parecem estar a sussurrar segredos que só eles conseguem ouvir, deixando o ouvinte a escutar à escondida a própria emoção. É uma química rara: tensão e ternura em perfeito equilíbrio.

Tricky surgiu da fértil cena de Bristol — o mesmo ecossistema que deu origem aos Massive Attack e aos Portishead —, mas enquanto estes ofereciam uma grandiosidade cinematográfica, ele proporcionava uma intimidade claustrofóbica. As suas batidas pareciam cruas, humanas, imperfeitas, costuradas a partir da memória. Quase se consegue ouvir os quartos onde as criou.

Ainda hoje, «Maxinquaye» parece vivo de uma forma que a maioria das produções modernas não consegue. Tem vida própria. O silêncio entre os sons é tão intenso quanto a própria música. Num sistema bem afinado, é possível ouvir os fantasmas na mistura — o leve ruído de fundo da fita, os traços da respiração da Martina, o eco do mundo do Tricky antes de a fama o ter alcançado.

Não é um álbum fácil, mas é precisamente essa a ideia. Recusa-se a entreter; convida à reflexão. É possível dançar ao som dele, claro, mas acabarás por te dar conta de que estás mais a pensar do que a mexer-te. É um álbum para ouvir, disfarçado — sombrio, sensual, meditativo.

A faixa-título nunca aparece, mas o conceito está presente em todo o álbum: «Maxinquaye» trata do regresso à origem. Trata do som como memória, da voz como herança e do ato de ouvir como um luto transformado em criação. Tricky não se limitava a criar batidas; estava a reconstruir o passado a partir de fragmentos.

Quando termina, instala-se um silêncio estranho — um silêncio que parece ao mesmo tempo pesado e reconfortante. Percebes que o que ouviste não é apenas um disco; é uma reconciliação. Entre mãe e filho, o masculino e o feminino, o ruído e o silêncio, a dor e a arte.

É por isso que «Maxinquaye» perdura. É um álbum que soa como o seu próprio reflexo — um homem a construir toda uma linguagem emocional a partir do que ficou para trás. Alguns álbuns avançam. Este avança para o interior. E, se o deixares, muda a forma como ouves.


Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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