Talvin Singh e o Som da Fusão Eletrónica Indiana (2001)
O álbum «Vira» (2001), de Talvin Singh, transforma o ritmo em reflexão — tabla, tom e tecnologia numa quietude perfeita.
Por Rafi MercerLançado em 2001, o álbum «Vira», de Talvin Singh, combina a produção eletrónica com influências da música clássica indiana — um disco marcado pela transição entre mundos.
Há álbuns que não pertencem a um lugar; pertencem a uma atmosfera. «Vira», lançado em 2001, parece ser um desses — um disco que parece pairar entre Londres e um lugar inteiramente imaginário. É o que acontece quando uma cidade aprende a respirar de novo depois do barulho, quando a tecnologia começa a zumbir em vez de gritar.
Na viragem do milénio, Londres ainda vibrava com o seu florescimento digital — drum and bass nas caves, trip-hop nos salões, broken-beat nos armazéns. No entanto, Vira parecia ter-se desviado, saindo da linha do tempo. Talvin Singh — percussionista, produtor e arquiteto sonoro — já tinha traçado a fusão entre o Oriente e o Ocidente com «OK» (1998), um álbum que lhe valeu o Prémio Mercury. Mas «Vira» era mais subtil, mais lento, mais profundo. Parecia menos uma declaração e mais uma reflexão.
As passagens iniciais desenrolam-se quase em silêncio — a respiração, as cordas, o brilho. Os padrões da tabla surgem como pensamentos, não como batidas. Quando o ritmo finalmente surge, não se anuncia; move-se como a água que encontra o seu caminho. O álbum transmite uma sensação simultaneamente digital e devocional: sintetizadores estendidos sobre a ressonância acústica, microtons a encontrarem-se com microchips.
O que chama a atenção é a forma como Vira parece apagar a noção de género. Não se trata de música eletrónica no sentido das discotecas, nem de música clássica na sua forma. É uma conversa entre o tom e o tempo — fragmentos de raga entrelaçados num ambiente moderno. É possível perceber os anos que Singh passou a transitar entre tradições: o fraseado disciplinado do ritmo clássico indiano a encontrar-se com a imprevisibilidade fluida do underground londrino.
Seja a ouvir em vinil ou num sistema de som de alta qualidade, o nível de detalhe é surpreendente. Cada toque da pele na pele do tambor, cada decaimento da reverberação, parece deliberado. A produção de Singh cria espaço em vez de o preencher; as frequências desabrocham e desvanecem-se como a luz no nevoeiro. Começamos a perceber o quão silencioso o álbum realmente é — não em termos de volume, mas de confiança. Não procura chamar a atenção. Espera que sejamos nós a aproximarmo-nos dele.
Há uma passagem — um zumbido suspenso a meio da peça — em que o tempo parece dobrar-se. Não é música para o ímpeto; é música para a memória. Em 2001, quando tudo estava a acelerar, Singh ofereceu-nos uma hora de quietude, um convite para nos deixarmos levar por outro ritmo.
Hoje, Vira parece profética. Muito antes de «ambient» se tornar um algoritmo, isto era «ambient» humano — preciso, feito à mão e acolhedor. É o som de Londres a olhar para dentro de si, da cidade global a tornar-se meditativa, do frequentador de discotecas a fechar os olhos em vez de dançar.
Talvin Singh chamou-lhe «Vira», uma palavra em sânscrito que pode significar «herói», «energia» ou «essência». As três definições se encaixam. É um álbum sobre coragem — a coragem de abrandar, de ouvir o silêncio, de construir pontes em vez de batidas.
Ouve-o à noite, com as luzes baixas, e a cidade lá fora desaparece. Ficas apenas com o pulsar, a respiração e o espaço.
Isso, à sua maneira discreta, é revolucionário.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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