William Basinski – The Disintegration Loops (2002)
Por Rafi Mercer
No início, é apenas um loop: uma curta frase orquestral, gravada há anos, a repetir-se como um pensamento que se recusa a desaparecer. Repete-se com a regularidade da respiração. Mas, à medida que os minutos passam, algo começa a acontecer. O som começa a desgastar-se, a própria fita — partículas magnéticas ligadas a plástico frágil — começa a desintegrar-se. A cada rotação, mais material se desprende. A melodia desintegra-se, literalmente, diante dos nossos ouvidos. O que antes era inteiro torna-se poroso, fantasmagórico, dissolvendo-se no silêncio.
Esta é a essência de *The Disintegration Loops*, de William Basinski, um dos documentos mais marcantes da música moderna. Concebido quase por acaso no final da década de 1990, quando Basinski tentava digitalizar o seu arquivo de loops em fita, tornou-se uma elegia quando associado aos acontecimentos de 11 de setembro de 2001. Enquanto Basinski observava o fumo a elevar-se sobre Nova Iorque a partir do telhado do seu apartamento no Brooklyn, reproduziu as gravações, filmando o pôr-do-sol à medida que os loops se dissolviam. Dessa coincidência surgiu um álbum que ficaria para sempre ligado à memória, à perda e à fragilidade do próprio tempo.
A música é enganosamente simples. Cada peça consiste num loop — fragmentos de metais e cordas, muitas vezes quentes e bucólicos — que se repetem incessantemente. Mas o próprio ato de reprodução destrói-os. A fita descama, o sinal enfraquece, o som esvazia-se. O que começa exuberante termina oco, até que, por fim, nada resta além de um chiado. Este processo não é composição no sentido tradicional. É erosão, documentada em tempo real. A beleza reside em ouvir o som desintegrar-se, em ver a permanência revelar-se como uma ilusão.
Em «dlp 1.1», talvez o mais icónico da série, o loop é majestoso, quase como um hino, uma figura de metais que se desenrola com uma suave melancolia. A princípio, parece eterno. No entanto, surgem pequenas lacunas, momentos de distorção, o tom a desvanecer-se nas margens. Meia hora depois, tornou-se um fantasma de si mesmo — frágil, quebrado, mas não menos comovente. Na verdade, o declínio torna-o ainda mais comovente. O ato de ouvir transforma-se em testemunho. Não estás a ouvir uma atuação; estás a ouvir algo a morrer.
Seguem-se outros loops, cada um com o seu próprio carácter. Alguns desintegram-se rapidamente, outros prolongam-se por mais de uma hora antes de se desmoronarem. Alguns revelam harmónicos inesperados à medida que a fita se desintegra, texturas escondidas nas imperfeições. Outros simplesmente esbatem-se até desaparecerem. No seu conjunto, formam não um álbum no sentido habitual, mas sim um ciclo, uma meditação sobre a impermanência. A música não questiona o que é uma peça, mas sim o que acontece quando esta deixa de existir.
A ressonância cultural de *The Disintegration Loops* é indissociável do momento em que surgiu. Lançado em 2002, foi imediatamente interpretado como um réquiem pelo 11 de setembro. O próprio Basinski reforçou esta interpretação, dedicando o álbum às vítimas e lançando o vídeo filmado no telhado como acompanhamento visual. A imagem do fumo das Torres Gémeas, combinada com o som em dissolução, tornou-se emblemática. No entanto, o significado da obra é mais abrangente. Fala não só dessa tragédia, mas de todas as perdas, de toda a decadência, de toda a mortalidade. É música sobre a própria passagem do tempo.
O que a torna extraordinária é o facto de continuar a ser comovente, apesar da sua austeridade. Não há clímax, nem surpresas, nem gestos virtuosos. E, no entanto, os ouvintes descrevem frequentemente sentir-se profundamente comovidos, chegando mesmo às lágrimas. A emoção não surge do desenvolvimento musical, mas sim do próprio processo. Ouvir algo desmoronar-se lentamente, inexoravelmente, mantendo ao mesmo tempo a sua dignidade, é profundamente humano. É um reflexo das nossas próprias vidas, dos nossos próprios corpos, das nossas próprias memórias.
Em vinil ou em cassete, a ressonância torna-se mais profunda. O próprio suporte transmite uma sensação de fragilidade, a consciência de que também ele se desgastará, riscar-se-á e desbotará. Segurar o disco é ter a impermanência nas mãos. Cada reprodução é mais um passo na jornada do ciclo, mais um encontro com o desaparecimento.
A influência de *The Disintegration Loops* tem sido enorme. É considerado um marco na música experimental e ambiente, servindo de inspiração a artistas de vários géneros. Também mudou as noções sobre o que a música poderia registar. Enquanto a maioria das gravações procura captar a interpretação como algo perfeito e repetível, Basinski captou a interpretação como um fracasso, como entropia. Ao fazê-lo, criou algo paradoxalmente permanente: um retrato da impermanência.
Ao ouvi-la hoje, a obra não perdeu o seu valor. Pelo contrário, a sua relevância aumentou numa era profundamente consciente da fragilidade — ambiental, política e pessoal. Ela lembra-nos que nada dura para sempre, que a beleza e a decadência são inseparáveis, que os finais fazem tanto parte da música como os começos. As suas repetições não entorpecem, mas aguçam a consciência. Começamos a ouvir não só o loop, mas também o ar à sua volta, o silêncio por baixo dele, a nossa própria perceção em constante mudança à medida que o tempo se arrasta e se contrai.
O álbum «The Disintegration Loops» não é para qualquer estado de espírito. Exige paciência, abertura de espírito e vontade de enfrentar a perda. Mas, para quem se deixa envolver por ele, a recompensa é profunda. Não oferece consolo, mas sim clareza: o reconhecimento de que a impermanência é universal e de que, nela, reside uma beleza estranha e devastadora.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais histórias da rubrica «Tracks & Tales», subscrevaou clique aqui para ler mais.