Yabun — Meitei (2018)

Yabun — Meitei (2018)

Dezoito minutos das primeiras horas da madrugada em Quioto — o disco onde começa o ambiente japonês perdido.

Por Rafi Mercer

Há um momento à noite em que a cidade deixa de estar em movimento. O último ruído desaparece. O que fica não é o silêncio — é o som de um lugar onde já não há ninguém a observar. Água algures. Uma persiana. O zumbido característico que uma divisão emite quando é finalmente deixada sozinha.

O japonês tem uma palavra para essa altura da noite. Yabun. As primeiras horas da madrugada. Tarde, mas não no sentido romântico — o meio da noite comum e sem glamour, quando as coisas simplesmente continuam a acontecer sem a tua presença.

Os Meitei lançaram um disco com esse nome no início de 2018. Cinco faixas. Dezoito minutos. Lançamento independente, sem nenhuma editora por trás, sem campanha publicitária, sem expectativas. Chegou antes do Kwaidan, antes do Pitchfork, antes de tudo isso. Quase ninguém o ouviu na altura.

Na altura chamava-se Daisuke Fujita, tal como hoje. Nasceu em Hiroshima. Vive em Quioto. Os títulos das faixas parecem mais um passeio do que uma lista de faixas: Ike, um lago. Chōchin, uma lanterna de papel. Utano, um bairro na zona oeste da cidade. Nami, uma onda. Ensō, o círculo zen desenhado num único fôlego ininterrupto — completo e inacabado ao mesmo tempo.

Esse último indica-te o que o disco está a fazer.

Aqui não houve qualquer empréstimo. Ele tem sido muito claro a esse respeito desde então: ao longo deste período, nem uma única amostra provinha do trabalho de outro artista. Tudo foi construído a partir de sons que ele próprio captou e levou para casa. A amostragem de vinis japoneses antigos — a técnica deliberada e ligeiramente distanciada que mais tarde viria a definir os discos da Kofū — surge muito mais tarde. Yabun é algo interno. É um homem num quarto com o que encontrou lá fora.

E tudo isso foi gravado.

É esta a parte que faz a diferença. A fita retira o brilho do som. Suaviza o ataque, acrescenta um ruído de fundo e faz com que o tom se desvie numa fração de nada. O ouvido interpreta as arestas acentuadas como proximidade — retire-as e tudo recua. Primeiro no espaço, depois no tempo. O lago não é um lago junto ao qual estás. É um lago junto ao qual te lembras de ter estado.

Nada se resolve. As passagens começam, mantêm uma forma durante dois ou três minutos e param. Não há um desfecho, por isso não há nada a que se agarrar. Mantém-se onde a música ambiente deve permanecer — acessível, sem exigências.

Não há letra para citar. Não existe, de todo, uma voz no sentido habitual do termo.

O que faz com que seja uma escolha estranha para um bar, mas perfeita para uma sala de audição. Dezoito minutos é a duração de uma faixa. É ideal para aquele momento em que a sala de audição fica com apenas quatro ou cinco pessoas e o volume baixa um pouco, sem que ninguém tenha decidido fazê-lo. O «Jazz Kissa» construiu toda a sua cultura com base no pressuposto de que um disco poderia ser a razão para se estar num determinado lugar. O «Yabun» pede menos do que isso. Pede apenas para ser a última coisa a tocar antes de se apagarem as luzes.

O que se seguiu está bem documentado. «Kwaidan» estreou-se mais tarde nesse mesmo ano e fez o que as estreias quase nunca fazem: pegou no folclore japonês — as histórias de fantasmas e o ambiente sombrio que as envolve — e transformou-o em algo com que o mundo da música ambiente teve de contar. Seguiu-se «Komachi ». Depois, a trilogia Kofū, com estreia em 2020 e conclusão em 2023, que foi quando surgiram as digressões e o público internacional. Ele chama a todo o projeto de «o estado de espírito japonês perdido»: uma era e uma estética que se vão afastando da consciência coletiva a cada geração que passa.

Yabun permaneceu pequeno. É uma semente, e soa como uma semente — de dimensões mais reduzidas, desprotegida, criada sem qualquer ideia de que alguém viria à sua procura mais tarde.

Mas o método já está completo. Ele não está a reconstruir o Japão antigo. Está a reconstruir o estado em que este se encontra, meio perdido, o que é uma tarefa diferente e mais difícil. A degradação não é um filtro aplicado sobre o material. É o próprio material. A memória está desajustada em relação àquilo de que se lembra, e a fita sabe disso.

Ouve-a às oito da manhã e continua a fazer sentido, embora o nome te corrija discretamente. Pertence à hora em que um lago é apenas um lago e não há ninguém à sua margem.

O círculo fecha-se e, ao mesmo tempo, não se fecha.


Perguntas rápidas

O que significa «Yabun»?

夜分 — as primeiras horas da madrugada. O meio da noite em sentido comum, e não uma visão poética do mesmo.

Devo começar por aqui ou pelo «Kwaidan»?

A maioria das pessoas começa por«Kwaidan», que é a obra mais completa. Comece por «Yabun» se quiser conhecer o método antes de ter sido aperfeiçoado — a mesma abordagem, mas em menor escala e sem nada a perder.

Qual é a melhor forma de o ouvir?

A ouvir de um só lado, com o volume baixo, numa sala silenciosa. Dura dezoito minutos e não vale a pena ir ver como está a correr.


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