Hibiki Japanese Harmony — Equilíbrio para o ouvinte do dia-a-dia

Por Rafi Mercer

A primeira coisa que se nota é a cor. Não é o mogno profundo resultante de longos anos em carvalho, mas sim um tom dourado pálido que reflete a luz como o sol do início da tarde. O Hibiki Japanese Harmony é um uísque que não exige reverência; convida à presença. É o tipo de bebida que não insiste no silêncio antes de se beber, mas que, em vez disso, se insere na conversa, de forma subtil e natural, como o suave estalido do vinil entre faixas.

Quando foi lançado em 2015, o Hibiki Harmony tinha um desafio para resolver. O uísque japonês tinha-se tornado objeto de fascínio a nível mundial — colecionadores a esvaziar as prateleiras, barmen a lutarem para garantir garrafas, entusiastas a pagarem pequenas fortunas por edições mais antigas. Os Hibikis com indicação de idade, como o venerado de 21 anos, estavam a tornar-se cada vez mais escassos. A resposta da Suntory não foi criar uma imitação mais barata, mas sim reimaginar o que um blend poderia ser naquele momento: acessível, elegante e inconfundivelmente Hibiki. O Harmony tornou-se a ponte entre a raridade e a vida quotidiana.

O próprio líquido conta a história. No nariz, encontram-se frutas frescas do pomar — maçã crocante, pêra suave, um toque de casca de laranja. Por baixo disso, o mel surge como a luz do sol. No paladar, o Harmony é todo equilíbrio: pêssego branco, amêndoa, especiarias suaves, a doçura dos whiskies de cereais a entrelaçar-se na perfeição com o malte. O final é limpo, quase discreto, deixando apenas o calor suficiente para perdurar sem se tornar incómodo. É um whisky concebido para o ritmo, não para o espetáculo.

É essa sensação de contenção que faz com que o «Hibiki Harmony» mereça estar ao lado do «Blue», de Joni Mitchell, no Guia Tracks & Tales dos 50 Melhores Álbuns. Tal como o «Blue» não é grandioso nem monumental, mas sim íntimo e transparente, o «Harmony» fala suavemente, mas deixa a sua marca. Ambos possuem uma clareza capaz de nos comover sem precisarem de levantar a voz. O «Blue» dá a sensação de estarmos a ler o diário de alguém através da música; o «Harmony» dá a sensação de estarmos a abrir uma janela para o mundo do uísque — leve, honesto, sem adornos.

No bar de degustação, essa combinação ganha vida. Um Highball alto de Harmony e água com gás, servido sobre gelo cristalino, tem uma verticalidade que parece arquitetónica: as bolhas a subir como arpejos de piano. Ouça «A Case of You», de Mitchell, enquanto saboreia a bebida e sentirá as semelhanças — a forma como a delicadeza transmite profundidade, a forma como a honestidade perdura muito depois da última nota ou do último gole. O Harmony não se trata de dominar o espaço; trata-se de criar espaço nele.

É esse espaço que o torna perfeito para o dia-a-dia. O Hibiki 21 pode ser a sinfonia reservada para noites grandiosas, mas o Harmony é o trio que toca ao crepúsculo, o amigo a quem recorremos sem hesitação. É o uísque que servimos quando se escolhem discos, quando a noite ainda está a tomar forma. Há beleza nesse papel. Nem todos os uísques têm de chamar a atenção; alguns elevam o quotidiano ao encontrarem o equilíbrio perfeito com ele.

Seria fácil considerar o Harmony como o Hibiki «de gama básica», mas isso seria ignorar o essencial. Tal como o Blue, não precisa de grandiosidade para ter peso. A sua arte reside na proporção, na forma como cada elemento é colocado com tanta precisão que nada parece faltar. Bê-lo é compreender que a harmonia não é insipidez; é ressonância na sua forma quotidiana.

Então, sirva um copo. Deixe o disco girar. Deixe que o Hibiki Harmony lhe lembre que, por vezes, a melhor experiência auditiva não acontece em momentos de grandeza, mas sim nos delicados equilíbrios que fazem com que uma sala pareça completa.

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