Laphroaig 10 Cask Strength — Um rugido vindo da costa
Por Rafi Mercer
Poucos whiskies dividem tanto as opiniões como o Laphroaig. Para alguns, é demasiado: demasiado fumado, demasiado medicinal, demasiado cru. Para outros, é a própria essência de Islay — o whisky que melhor reflete a identidade do local. Em nenhum outro lugar esse carácter é mais assumido do que no 10 Year Old Cask Strength, engarrafado diretamente do barril com o teor alcoólico original. É o Laphroaig com o volume no máximo, um rugido proveniente da costa da ilha, castigada pelas tempestades.
A própria destilaria remonta a 1815, quando os irmãos Donald e Alexander Johnston começaram a produzir uísque na costa sul de Islay. As terras em redor de Laphroaig são compostas por turfeiras e ar salgado, e ambos os elementos estão presentes no uísque. Ao longo de dois séculos, a destilaria construiu uma reputação como uma das mais distintas da Escócia — apreciada por quem adora a sua intensidade, evitada por quem não gosta.
No copo, a versão Cask Strength brilha com um âmbar intenso. No nariz, não há como confundir: ondas de fumo de turfa, iodo, antisséptico e algas marinhas. Por trás do fumo surgem notas de baunilha, caramelo e um toque cítrico, mas estas são secundárias. No paladar, o whisky explode — fumado, medicinal, salgado, terroso, mas também doce com malte e um toque de especiarias de carvalho. Com o seu elevado teor alcoólico, os sabores são amplificados, mas surpreendentemente coerentes. O final é imenso: fumado, seco, perdurando durante minutos como o eco de um cântico.
Este não é um whisky que passa despercebido. Domina o ambiente, define o clima e exige atenção. É precisamente por isso que merece o seu lugar no Guia Tracks & Tales dos 50 Melhores Whiskies. Nem todas as garrafas se caracterizam pelo equilíbrio ou pela subtileza; algumas caracterizam-se pela força, por mostrarem o que o whisky pode ser quando se expressa sem concessões.
A referência musical aqui é o álbum *Karma*, de Pharoah Sanders. Lançado em 1969, o álbum gira em torno da monumental «The Creator Has a Master Plan» — uma peça de 32 minutos que se eleva, entoa e ruge com intensidade espiritual. Tal como o Laphroaig Cask Strength, não é uma audição fácil. É cru, avassalador, extático. Mas, para quem estiver disposto a entrar no seu mundo, é transformador.
Imagine um bar de música, já tarde da noite. As luzes esbatem-se, o disco começa a tocar, a voz sem palavras de Leon Thomas a elevar-se por cima do saxofone de Sanders. Na mão, um copo de Laphroaig 10 Cask Strength. O primeiro gole é um choque, quase perturbador, como as primeiras notas estridentes do saxofone. Depois, à medida que nos acomodamos, surge a doçura, o ritmo ganha força e, de repente, a intensidade transforma-se numa forma de libertação. Tanto o whisky como a música exigem que nos rendamos — e, em troca, proporcionam-nos catarse.
O que torna o Laphroaig Cask Strength notável é a sua recusa em fazer concessões. Até mesmo a sua versão normal de 10 anos é famosa por dividir opiniões, mas na versão «cask strength» torna-se elementar, um uísque que parece transportar o mar, a terra e o fogo no seu interior. Esse nível de honestidade é raro. Pode não ser para todos, mas para aqueles a quem diz algo, fala-lhes profundamente.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais artigos da secção «Tracks & Tales»,subscreva ou clique aqui para ler mais.