Miyagikyo Single Malt — Elegância Sussurrada
Por Rafi Mercer
Sirva um copo de Miyagikyo Single Malt e irá notá-lo logo no aroma: delicado, quase floral, com um toque de frutos do pomar e de flores. Não se impõe com força; revela-se com uma serenidade discreta. Enquanto o seu irmão Yoichi é robusto, com notas costeiras e fumadas, o Miyagikyo é o seu contraponto — elegante, frutado e requintado, elaborado no vale exuberante de Sendai.
A destilaria Miyagikyo foi fundada em 1969 por Masataka Taketsuru, fundador da Nikka e pioneiro do uísque japonês. Após anos de sucesso com a sua destilaria Yoichi, em Hokkaidō, Taketsuru procurou um segundo local onde pudesse produzir um estilo mais suave. Encontrou-o num vale enevoado, rodeado por montanhas e banhado pelas águas límpidas do rio Nikkawa. O clima do local — verões húmidos, invernos frios — foi escolhido com a mesma precisão com que um maestro seleciona os seus músicos. Miyagikyo seria a destilaria que acrescentaria leveza ao portfólio da Nikka, um contraponto ao perfil mais encorpado de Yoichi.
No copo, o Miyagikyo Single Malt brilha com um tom dourado pálido. No nariz, revela notas de pêra, maçã e pêssego, realçadas por notas florais de lírio e flor de sabugueiro. A baunilha e o carvalho suave estão presentes em segundo plano, suavizando as arestas. No paladar, é elegante: fruta com toque de mel, um pouco de doçura do malte, seguida de canela e cravo-da-índia que surgem sem agressividade. Aqui não há turfa, nem fumo intenso — apenas clareza. O final é médio, limpo, com uma doçura persistente que mais se assemelha ao último compasso de uma melodia do que a um ponto final.
O Miyagikyo é um uísque que recompensa a paciência. Não é avassalador; é convidativo. Reflete a filosofia japonesa do equilíbrio, não através da intensidade, mas sim da subtileza. Enquanto outros uísques podem adquirir intensidade através da graduação de barril ou da influência do xerez, o Miyagikyo constrói a sua presença através do requinte, eliminando o que é desnecessário.
Essa contenção torna-o uma parte essencial do Guia Tracks & Tales dos 50 Melhores Whiskies. Nem todas as garrafas do Guia precisam de rugir. Algumas sussurram, e é nesses sussurros que, muitas vezes, encontramos a ressonância mais duradoura.
Num bar onde se aprecia música, o Miyagikyo revela todo o seu potencial. É o tipo de uísque que se sente em casa nos momentos mais tranquilos da noite — quando as vozes se acalmam, quando o disco que gira cria mais atmosfera do que ruído. Aqui, o paralelo musical é o álbum «Sunday at the Village Vanguard», de Bill Evans. Gravado ao vivo em 1961, o trio de Evans tocou com uma delicadeza que nunca foi frágil. As notas pairavam no ar, deixava-se espaço em torno das frases e os silêncios transmitiam tanto significado quanto o som. O Miyagikyo faz algo semelhante no copo. Não sobrecarrega os sentidos; abre espaço para eles.
Esta combinação funciona porque tanto o uísque como o disco nos fazem lembrar a beleza da discrição. «Sunday at the Village Vanguard» não se centra na exibição de virtuosismo, mas sim no equilíbrio e na interação. O Miyagikyo não aposta na grandiosidade, mas sim na forma como a fruta, as especiarias e o carvalho se podem combinar para criar algo elegante. Ambos provam que a tranquilidade pode ser poderosa.
Para quem está a descobrir o uísque japonês, o Miyagikyo oferece uma lição de elegância. Mostra como o ambiente de uma destilaria — água, ar, clima — pode moldar o caráter. Revela a amplitude da visão da Nikka, a decisão de complementar a ousadia do Yoichi com algo mais contido. E confirma que, no uísque, tal como na música, o requinte nunca é acidental; é trabalhado, nota a nota, barril a barril.
Beba-o puro, num copo em forma de tulipa, o Miyagikyo Single Malt — Whispered Elegance, e deixe que as suas notas frutadas e florais se revelem lentamente. Acompanhe-o com um disco que deixe espaço entre as notas e irá ouvir — e saborear — mais do que espera. O Miyagikyo lembra-nos que, por vezes, as experiências mais duradouras não são as mais intensas, mas sim as mais precisas.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais artigos da secção «Tracks & Tales»,subscreva ou clique aqui para ler mais.