Oban — Um cão, uma cidade, um dram

Oban — Um cão, uma cidade, um dram

Por Rafi Mercer

Há whiskies que se bebem e esquecem, e há whiskies que ficam connosco — não só pelo sabor, mas pela forma como captam a própria essência da vida. Para mim, o Oban é um desses. Visitei a destilaria há anos, numa viagem que não teve nada de cerimonial, mas o que lá encontrei ficou gravado em mim. Foi mais do que uma visita guiada, mais do que um copo de whisky. Tornou-se um nome, uma memória, até mesmo um companheiro. Dei esse nome ao meu cão — um cocker spaniel de trabalho com um faro tão curioso quanto o de qualquer mestre misturador. Oban, o whisky; Oban, o cão; Oban, o lugar: todos ligados entre si, fios de uma mesma história.

A própria cidade situa-se no ponto onde as Terras Altas se encontram com o mar, um porto natural que há muito é a porta de entrada para as ilhas. Quando cheguei, senti que estava à beira de algo — não o fim, nem propriamente o começo, mas sim um limiar. A destilaria está aninhada no coração da cidade, a poucos passos da água, sendo uma das mais pequenas da Escócia. Os seus armazéns encostam-se à rocha, e os seus alambiques funcionam entre paredes que parecem respirar a sua própria história. Estar lá dentro não é sentir grandiosidade, mas sim intimidade, um coração pulsante no meio de uma cidade costeira.

O whisky que serviram naquele dia foi o Oban 14, o emblemático da destilaria. No copo, apresentava uma cor dourada com um toque de cobre. No nariz: citrinos, mel, ar do mar. No paladar: fruta doce no início, seguida de salmoura e fumo, carvalho e especiarias. Um equilíbrio entre a profundidade das Highlands e a frescura marítima. Era um whisky que refletia a própria geografia — falésias e porto, urze e sal. Lembro-me de o ter segurado contra a luz, depois de ter dado um gole enquanto as gaivotas gritavam lá fora, e de ter pensado: isto não é apenas uma bebida, é um lugar que se pode levar consigo.

Essa ideia ficou-me na cabeça. Semanas mais tarde, quando um cachorrinho de cocker spaniel de um castanho intenso entrou a correr na minha vida, pareceu-me natural chamá-lo de Oban. Ele tinha a mesma mistura: animado e inteligente, mas com os pés bem assentes no chão, um cão que parecia personificar tanto a espuma do mar como a terra sob os pés. Sempre que chamo pelo seu nome do outro lado de um campo, ouço não só o cão, mas também a cidade, a destilaria, o copo de whisky. O whisky como memória, o whisky como eco.

Há algo de poderoso na forma como a bebida e o lugar se entrelaçam. O Oban 14 não tem apenas o sabor do malte e do carvalho; tem o sabor dos limiares, das margens, de estar entre a montanha e o mar. Aquele dia na destilaria deu-me mais do que notas num cartão de degustação. Deu-me uma forma de recordar — de integrar a geografia nos sentidos, de nomear, de transportar o lugar para a vida quotidiana. O uísque tornou-se uma história, e a história tornou-se parte de mim.

Nos bares de degustação, penso frequentemente no Oban. Não porque seja o mais raro ou o mais complexo, mas porque transmite essa ideia de equilíbrio, de estar no meio. É o equivalente, no mundo do whisky, ao álbum «Low» de Bowie — um álbum que se situa entre o pop e o ambiente, entre a canção e a atmosfera. Tanto o whisky como o disco tratam da liminaridade, da força que advém de ocupar mais do que um mundo ao mesmo tempo.

O que Oban me ensinou é que o uísque nunca se resume apenas ao que está no copo. Tem a ver com os locais onde o bebemos, as pessoas com quem o bebemos, as memórias que vai acumulando ao longo do caminho. Tem a ver com os momentos que ficam gravados na memória — uma visita a uma destilaria, um passeio pelo cais, um cão a correr pela relva. Uma garrafa pode esvaziar-se, mas a sua ressonância perdura.

E talvez esse seja também o verdadeiro dom do uísque nos espaços de audição. Um copo de uísque faz-nos abrandar, ancora-nos à sala, permite que o som e a memória se entrelaçam. Para mim, Oban será sempre mais do que um uísque. É uma cidade, uma destilaria, um copo na mão e um spaniel a correr pelos campos — tudo ligado por um único nome.

Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais histórias da rubrica «Tracks & Tales», subscrevaou clique aqui para ler mais.

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