O Old Fashioned — O tempo no copo

O Old Fashioned — O tempo no copo

Por Rafi Mercer

Algumas bebidas chamam a atenção. Cores de néon, guarda-chuvas, uma profusão de fruta e efervescência. O Old Fashioned faz exatamente o oposto. Apresenta-se discreto no copo, âmbar e silencioso, contendo apenas três ou quatro ingredientes: uísque, açúcar, bitters e citrinos. Sem floreados, sem excessos, nada que distraia. É o mais próximo que um cocktail pode chegar da sua essência — a bebida espirituosa no centro, tudo o resto apenas para a realçar.

O Old Fashioned não é apenas uma receita; é uma filosofia. Lembra-nos que a complexidade nem sempre resulta da adição. Por vezes, resulta da subtração, da redução de uma ideia ao seu essencial. Beber um Old Fashioned é beber uma espécie de sabedoria: a constatação de que menos pode, de facto, ser mais, se se der atenção ao que resta.

Sempre considerei o Old Fashioned uma bebida séria, não no sentido de austeridade, mas pela sua capacidade de nos ajudar a concentrar. É o cocktail a que recorro quando quero pensar menos e deixar-me absorver mais. O peso do copo, a diluição lenta do gelo, o aroma dos óleos de laranja que se elevam com o uísque — tudo isso parece acalmar o ruído do dia. Não se bebe um Old Fashioned à pressa. Vive-se o momento, um gole de cada vez.

O próprio nome diz tudo. No início do século XIX, os cocktails eram bebidas elaboradas — ponches com licores exóticos, xaropes e guarnições. Para quem preferia algo mais simples, o pedido passava a ser: «um cocktail, à moda antiga». Bebida espirituosa, açúcar, bitter e água. Nada mais. Com o passar do tempo, este pedido simplificado foi-se consolidando como uma bebida própria. O Old Fashioned não foi uma invenção nova, mas sim uma preservação — uma recusa em deixar que a simplicidade caísse no esquecimento. Há otimismo nisso. Escolher um Old Fashioned é acreditar que o que outrora foi bom continua a sê-lo. Que o progresso nem sempre significa complicação. Que o requinte pode significar clareza. Num mundo que está constantemente a acrescentar mais, o Old Fashioned convida-nos a parar, a retirar, a reparar no que resta.

O que mais adoro é a geometria do copo. O açúcar repousa na base, dissolvendo-se lentamente. Os bitters conferem profundidade, com as suas notas de especiarias e casca de árvore a ecoarem em segundo plano. O uísque é que dá o tom a tudo isto — bourbon, se quiseres calor; rye, se quiseres um toque picante; ou uísque de Speyside, se quiseres elegância. Um único cubo de gelo arrefece e dilui, prolongando o sabor ao longo do tempo. A casca de laranja coroa a bebida, iluminando cada gole com os seus óleos essenciais. Juntos, criam uma estrutura que se revela gole a gole. No início, a bebida é ousada — com o uísque a dominar e uma doçura acentuada nas notas finais. À medida que o gelo derrete, a bebida abre-se, suaviza-se e torna-se mais redonda. No final, é suave, integrada, mais uma conversa do que uma afirmação. Cada Old Fashioned é uma viagem em miniatura, uma história contada num único copo.

E embora possa ser descrito em prosa, por vezes a clareza é melhor transmitida de forma direta. Aqui está o Old Fashioned, descrito com a mesma simplicidade com que é servido:

O Old Fashioned

  • 60 ml (2 oz) de uísque — o bourbon ou o uísque de centeio são as opções tradicionais, mas os uísques escoceses de Speyside ou Islay oferecem variações modernas
  • 1 cubo de açúcar ou 1 colher de chá de xarope de açúcar
  • 2–3 pitadas de Angostura bitters
  • 1 cubo de gelo grande
  • Casca de laranja

Método: Coloque o cubo de açúcar num copo de whisky de parede grossa. Adicione o bitter e um fio de água e, em seguida, esmague até dissolver. Adicione o whisky e mexa suavemente sobre um cubo grande de gelo. Esprema os óleos da casca de laranja sobre a superfície da bebida e, em seguida, coloque a casca no copo. Sirva, saboreie e deixe os sabores revelarem-se.

Ao contrário de muitos cocktails, o Old Fashioned nunca esconde a sua bebida alcoólica de base. Exige um bom uísque, porque nada o irá mascarar. Já provei versões com tudo, desde bourbons com elevado teor de centeio até ao uísque escocês Macallan envelhecido em barris de xerez. Cada uma traz a sua própria personalidade. Um Old Fashioned com Lagavulin é fumo envolto em notas cítricas; um com GlenDronach é fruta seca realçada por especiarias. A bebida não se impõe — revela-se. É isso que a torna tão adequada ao espírito de um bar onde se ouve música. Tal como um álbum como o «Search for the New Land», de Lee Morgan, permite que cada instrumento expresse a sua voz, o Old Fashioned deixa o uísque falar claramente. O açúcar e os bitters são a secção rítmica, a casca de laranja um lampejo de metais, mas a melodia pertence à bebida.

O ritual de preparar um faz parte do seu encanto. Mexer um Old Fashioned é afirmar que vale a pena fazer algumas coisas como deve ser. Que um cubo de açúcar pode ser dissolvido lentamente, que uma casca de citrino pode ser torcida com cuidado, que se pode deixar que a diluição modele o sabor, em vez de a apressar. Na preparação da bebida, encontra-se um pequeno ato de resistência à pressa. E nessa resistência está a esperança. Se um copo pode ser preparado com cuidado, talvez uma noite possa ser vivida com cuidado. Se uma bebida pode fazer-nos abrandar, talvez uma vida possa ter um ritmo diferente. O Old Fashioned não é apenas nostalgia. É um apelo a um presente melhor: um presente em que valorizamos os detalhes, a paciência e o equilíbrio.

Costumo pensar no Old Fashioned como o ponto final de uma noite. Não é a frase de abertura, nem o clímax, mas sim o parágrafo final que une tudo. É a bebida que me apetece quando a conversa já abrandou, quando o disco está na última face, quando a noite se volta para a reflexão. E é aí que reside a essência. O Old Fashioned não tem a ver com distração. Tem a ver com absorção. Tem a ver com dedicar toda a sua atenção a um copo, a uma hora, a um disco. É uma bebida séria, sim — mas também otimista, um lembrete de que a vida pode ser vivida com cuidado, de que ainda é possível optar pela presença.

Talvez seja por isso que perdura. Porque, na sua simplicidade, mostra-nos algo essencial: que não precisamos de mais, precisamos de melhor. Que no uísque, tal como na música e na vida, o jeito à moda antiga pode ainda ser o futuro.

Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais histórias da rubrica «Tracks & Tales», subscrevaou clique aqui para ler mais.

Voltar às histórias

Não é uma lista de reprodução.

O número de membros fundadores está limitado a 200 em todo o mundo. O Clube de Audição «Tracks & Tales» destina-se a quem compreende que ouvir não é apenas ruído de fundo, mas sim uma forma de estar presente.

INSCRIVA-SE AGORA