Amesterdão: A cidade dos canais que ressoam

Amesterdão: A cidade dos canais que ressoam

Por Rafi Mercer

Amesterdão transmite o som de forma diferente. Os canais moldam o ar, distorcendo as vozes, suavizando os passos, deixando a música flutuar sobre a água como se fosse transportada mais lentamente do que noutras cidades. Sempre foi uma cidade de ressonância, de ecos que perduram. Para mim, Amesterdão foi também um local de trabalho — anos de idas à Virgin Megastore, reuniões e caixas de discos transportadas pelo aeroporto de Schiphol, lembranças de que esta não era apenas uma cidade de canais, mas também uma cidade de cultura, onde a música era simultaneamente negócio e ambiente.

Naquela época, Amesterdão parecia um centro nevrálgico, um local onde o comércio discográfico europeu convergia. As lojas estavam cheias, as noites eram animadas e o ar estava repleto de som. A música de dança prosperava nas discotecas, o jazz reinava em pequenas salas e a música eletrónica experimental pulsava em armazéns reconvertidos a partir de instalações industriais. Amesterdão sempre se recusou a ser apenas uma coisa em termos musicais; prospera na hibrididade, na mistura, na fluidez. A cultura discográfica refletia isso mesmo: caixas de techno ao lado de reedições de jazz, importações lado a lado com rock holandês. Para um comprador, era o paraíso.

Hoje, com o ressurgimento do vinil, Amesterdão volta a sentir-se no centro das atenções. Os colecionadores vasculham as lojas da cidade à procura de edições japonesas, os DJs fazem fila para comprar reedições e os jovens ouvintes compram LPs como se estivessem a descobrir a permanência pela primeira vez. As casas junto aos canais podem ter séculos de idade, mas os gira-discos no seu interior giram com novidade. O vinil assenta bem nesta cidade — tangível, com camadas, com textura. Amesterdão não tem a ver com velocidade, mas sim com detalhes, com perceber a essência das coisas. Um disco, com as suas imperfeições e o seu peso, encaixa nessa filosofia.

E foi nesta cultura que surgiram os bares de audição, uma extensão mais tranquila do amor da cidade pelo som. Trazem consigo a influência dos kissa de Tóquio — silêncio, fidelidade, paciência —, mas são inconfundivelmente holandeses. O ambiente é menos austero, mais aberto, tal como os próprios canais. As salas são modestas, muitas vezes iluminadas à luz de velas, com interiores em madeira que transmitem calor em vez de austeridade. O som é cuidado, os discos escolhidos com dedicação, mas o ambiente é inclusivo, curioso, exploratório. Sente-se uma cidade disposta a ficar em silêncio, a ouvir de forma diferente, a tratar o som como arquitetura.

Amesterdão é uma cidade de bicicletas, de movimento, de conversas que se travam em movimento. No entanto, nos seus bares dedicados à audição, redescobre-se a quietude. O disco torna-se uma âncora, a sala torna-se um enquadramento e o silêncio torna-se tão presente como a água lá fora. Para quem se lembra de transportar caixas de discos por estas bandas nos anos da Virgin, parece uma continuidade. O negócio da música mudou, o streaming domina, mas Amesterdão prova que a cultura da audição continua a ser importante, talvez agora mais do que nunca.

Ao caminhar de volta ao longo dos canais à noite, ouvem-se ecos por todo o lado: o bater das ondas, o toque dos sinos, uma melodia ténue de trompete proveniente de um disco a tocar numa sala escondida. Amesterdão não deixa o som desaparecer; transporta-o, distorce-o, deixa-o viajar lentamente. E é por isso que o bar de audição faz tanto sentido aqui. Amplifica o que a cidade já sabe: que a ressonância é tão valiosa quanto o ruído, que a profundidade importa, que a música perdura.

Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais artigos da rubrica «Tracks & Tales», subscreva ou clique aqui para ler mais.

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