Cinema Paradiso — Ouvir como forma de tornar a memória audível

Cinema Paradiso — Ouvir como forma de tornar a memória audível

Uma crítica reflexiva de Rafi Mercer ao álbum Cinema Paradiso de Ennio Morricone — uma reflexão sobre a memória, o lugar e o poder silencioso da escuta.

Por Rafi Mercer

Há álbuns que se ouvem à nossa frente e álbuns que parecem tocar dentro de nós. A banda sonora de «Cinema Paradiso», composta por Ennio Morricone, pertence claramente a esta última categoria. Não surge com ritmo nem com ostentação. Entra silenciosamente, como um pensamento que nem sabíamos que estávamos a ter, e depois permanece — muito depois de a sala ter ficado em silêncio.

Já voltei a ouvir este disco mais vezes do que consigo contar, muitas vezes sem o querer. Começa a tocar quando o dia abranda, quando a luz se suaviza, quando ouvir deixa de ser uma questão de escolher e passa a ser mais uma questão de deixar-me levar. É aí que reside a sua genialidade: não é música que exige atenção; conquista-a através da paciência.

Morricone compreendeu algo fundamental sobre o som e o espaço. Sabia que a música podia transmitir a arquitetura — não paredes ou tetos, mas estruturas emocionais: saudade, permanência, arrependimento, ternura. Em «Cinema Paradiso», essas estruturas parecem antigas, como se sempre tivessem existido e o compositor se tivesse limitado a revelá-las. Os temas não avançam; circulam suavemente, regressando com ligeiras variações, como memórias revisadas a partir de diferentes distâncias.

O que mais me impressiona, ao ouvir agora, é o quão pouco acontece, na verdade — e o quanto se sente. As linhas de piano surgem sem adornos, as cordas elevam-se sem drama, as melodias repetem-se até parecerem inevitáveis. Esta contenção não é minimalismo por si só; é disciplina. Morricone deixa espaço deliberadamente, confiando que o ouvinte o preencha. A música respira porque não está sobrecarregada.

É aqui que o álbum se liga tão profundamente à ideia de que as cidades têm som. Roma, Itália, Europa — os locais repletos de história não gritam a sua presença. Eles ressoam. Zumbem numa frequência baixa, construída ao longo de séculos de passos, vozes e rituais. «Cinema Paradiso» soa como esse tipo de lugar: solene sem ser pesado, emotivo sem ser sentimental.

Há também aqui uma profunda generosidade. Morricone nunca se coloca no centro como virtuoso. As composições existem ao serviço do sentimento, não do ego. Essa humildade permite ao ouvinte projetar as suas próprias memórias na música. Não se ouve a nostalgia dele; ouve-se a sua própria. Quartos de infância. Cinemas desaparecidos. Noites que foram mais importantes do que se percebia na altura.

Costumo ouvir este álbum enquanto faço outras coisas — escrever, fazer café, olhar pela janela — e isso faz parte do seu poder. Não exige quietude, mas, mesmo assim, acaba por criá-la. Aos poucos, sem que ninguém o diga, o teu ritmo muda. Os teus pensamentos acalmam-se. A audição torna-se menos ativa, mais recetiva. Começas a reparar nos sons do teu próprio espaço — o rangido de uma tábua do soalho, o zumbido distante da cidade, o eco de uma memória.

Numa cultura obcecada pela instantaneidade e pelo volume, «Cinema Paradiso» parece quase radical. Lembra-nos que a música não precisa de competir pela atenção. Pode simplesmente estar presente. E, ao fazê-lo, ensina-nos a ouvir não só os discos, mas também os lugares — as casas, as cidades, a nossa própria acústica interior.

Esta não é uma banda sonora que vive no passado. Vive fora do tempo. É antiga e moderna ao mesmo tempo. Tal como a própria Roma, prova que a perdurabilidade não advém da reinvenção, mas sim da ressonância.

Quando ponho este disco a tocar, não estou à procura de sentir nada em particular. Estou a permitir-me recordar como era ouvir música — antes de se tornar algo para otimizar ou colecionar. E, de cada vez, silenciosamente, isso reajusta-me.

Afinal, ouvir não tem a ver com o volume.
Tem a ver com o que fica quando tudo o resto desaparece.


Perguntas rápidas

Porque é que este álbum se presta a uma audição demorada?
Porque dá prioridade ao espaço, à repetição e à ressonância emocional em detrimento do ritmo ou da complexidade.

Para que tipo de momento é mais adequado?
Do final da tarde até ao início da noite — quando a luz se esvai e os pensamentos se tornam mais profundos.

O que é que isto nos ensina sobre o lugar?
Que as cidades, tal como a música, guardam memórias — e só se revelam àqueles que estão dispostos a ouvir com paciência.


Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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