Ouvir à deriva — Optar por deixar a música vaguear
Uma introdução tranquila a um tipo de atenção mais suave
Por Rafi Mercer
A maioria de nós aprendeu a ouvir através de instruções sobre como deve ser uma boa escuta. Fica quieto. Presta atenção. Segue a melodia. Repara nos pormenores. Não te distraias.
Assim, quando a mente começa a divagar durante uma música — quando os pensamentos se dispersam, quando a música deixa de parecer o centro de tudo —, partimos do princípio de que algo correu mal. Pensamos que não conseguimos ouvir devidamente.
Mas há outra forma de ouvir. Uma forma que não exige concentração, mas que também não é descuidada. Passei a chamar-lhe «ouvir à deriva».
Ouvir de forma descontraída não significa ficar com a cabeça nas nuvens. Não se trata de música de fundo no sentido pejorativo. É o que acontece quando se opta por ouvir — deliberadamente — e, depois, se deixa que a música flua através de si sem se deixar prender por ela. Está presente, mas sem pressão. Atencioso, mas sem se deixar levar.
A intenção vem em primeiro lugar.
Escolhe a gravação.
Escolhe a sala.
Escolhe a hora.
E depois deixas de lado a necessidade de fazer alguma coisa com o som.
Reparei recentemente neste tipo de forma de ouvir música no meu escritório. Sem rituais, sem cerimónias. Um álbum a tocar baixinho através das colunas surpreendentemente potentes de um Mac de 27 polegadas. Não estava a analisá-lo. Não estava a acompanhar as faixas. A música simplesmente ocupava o espaço — e, de alguma forma, isso bastava. Os minutos passavam sem que me apercebesse. A sala parecia mais calma, mais ampla, menos opressiva.
Este é o ponto de partida para a audição «drift»: o momento em que percebes que a música nem sempre precisa de ser compreendida para ter impacto.
Há certos álbuns que parecem ter sido feitos para este estado de espírito. Lo-fi, ambiente, com influências de dub, minimalista — música que não te arrasta para a frente, mas sim se senta ao teu lado. Não conta uma história com um início e um fim. Cria uma atmosfera e confia em ti para que a vivas por algum tempo.
A audição distraída surge frequentemente em momentos de transição. Aeroportos a altas horas da noite. Cafés entre os picos de movimento. Escritórios quando o dia já foi acalmando. São momentos em que a mente não procura orientação — procura sim um refúgio. A música, ouvida desta forma, torna-se uma espécie de espaço de acolhimento.
Isto não é novidade, mesmo que ainda não tenhamos palavras para o descrever. A cultura japonesa dos «kissaten» há muito que compreende que ouvir não precisa de ser rígido para ser respeitoso. O repertório é cuidadosamente escolhido. O disco é reproduzido na íntegra. Mas permite-se que a atenção tenha os seus altos e baixos. Ninguém exige provas de envolvimento. A sala ouve contigo.
A cultura moderna do streaming tornou isto mais difícil. Somos encorajados a saltar, guardar, selecionar, decidir. Ouvir torna-se uma forma de navegação. A audição por impulso é o oposto — não porque careça de atenção, mas porque confia que a atenção se manifesta de forma mais discreta.
Quando nos deixamos levar de forma intencional, a música torna-se parte do ambiente. Remodela a sensação que um espaço transmite. Abrandando o relógio biológico. Acalma o sistema nervoso sem pedir explicações. E, muitas vezes, deixa um rasto mais profundo do que a audição concentrada alguma vez poderia deixar. Os álbuns ouvidos pela primeira vez desta forma têm o hábito de regressar anos mais tarde com uma clareza repentina, como se a familiaridade tivesse vindo a crescer sem que nos apercebêssemos.
Ouvir com atenção nem sempre significa ouvir com mais atenção. Às vezes, significa criar as condições com cuidado — e depois afastar-se.
Ouvir de forma descontraída não é uma fuga.
É um acordo suave entre ti e a música:
Eu fico aqui. Tu podes seguir em frente.
E num mundo que exige atenção constante, esse tipo de escuta parece, de certa forma, discretamente radical.
Perguntas rápidas
O que é a «escuta flutuante»?
Uma forma de ouvir em que se escolhe a música e o momento e, em seguida, se deixa a atenção relaxar sem se desligar.
A «escuta de fundo» é o mesmo que música de fundo?
Não. A música de fundo é incidental. A «escuta de fundo» é intencional, mas descontraída.
Por que é que isto é importante?
Porque proporciona uma forma de escuta que promove a presença sem pressão — algo cada vez mais raro.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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