Duke Pearson — O modernista discreto da Blue Note

Duke Pearson — O modernista discreto da Blue Note

Duke Pearson — o modernista discreto da Blue Note, cujo som amplo e emocionalmente inteligente do final da década de 1960 soa hoje surpreendentemente contemporâneo.

Por Rafi Mercer

Alguns músicos mudam o rumo do jazz à força — através do volume, da ousadia, moldando a música em novas formas com um esforço visível. Duke Pearson fez o contrário. Ele alterou a linguagem discretamente, através do toque, dos arranjos e da atmosfera. Ao ouvi-lo hoje, mais de cinquenta anos depois, percebe-se um som que soa surpreendentemente contemporâneo, como se ele, de alguma forma, tivesse antecipado o jazz mais suave e cinematográfico que viria a marcar a era seguinte.

Pearson tinha aquela rara capacidade de escrever com cores. Não apenas acordes, mas texturas — ar, espaço, brilho. Basta ouvir «How Insensitive», «Wahoo!» ou «Idle Moments» para o sentir instantaneamente: aquele calor suave e âmbar que parece pairar no ar, mesmo por cima das colunas. É a sensação de olhar para dentro de uma sala através de uma porta entreaberta. Nada grita. Tudo convida.

O que mais me impressiona, ao ouvi-lo novamente hoje, é o quão moderno ele soa — não no sentido da fusão, da música eletrónica ou de truques de estúdio, mas na forma como tratava o ambiente emocional como um instrumento fundamental. Pearson compreendeu algo que muitos músicos só mais tarde perceberam: que a temperatura emocional de um disco pode ser tão determinante quanto os solos, e que a contenção pode ser tão radical quanto a ruptura.

Veja-se a sua linguagem harmónica. Essas vozes — abertas, flutuantes, ligeiramente atrasadas — parecem ser o ADN de tanta música posterior: a era dos «kissaten» japoneses, o minimalismo glacial da ECM, os recantos mais suaves do jazz brasileiro, até mesmo o neo-soul instrumental contemporâneo. Pearson já fazia isso nos anos 60, mas sem fetichizar o «cool». Ele simplesmente sabia como deixar espaço, como permitir que o silêncio mantivesse a sua forma, como dar à melodia espaço para se desenvolver.

Depois, há o seu trabalho como arranjador. Muitos ouvintes não se apercebem do quanto a identidade da Blue Note no final dos anos 60 foi moldada pela sua mão. Quando assumiu as funções de A&R, a paleta da editora mudou: um pouco mais suave, um pouco mais cinematográfica, com toques de ideias rítmicas brasileiras e harmonias de coro. Não se tratava de um suavizar comercial — era um envolver emocional. Pearson fez com que o jazz parecesse próximo, quase doméstico, como um disco no qual se podia viver, em vez de simplesmente admirar.

Talvez seja por isso que *How Insensitive* pareça tão estranhamente atual. Trata-se de um disco de 1969 que se comporta como algo feito para a cultura auditiva moderna — lento, espaçoso, atmosférico, concebido para longas noites e não para um escrutínio intelectual. A mistura de coro, piano elétrico, percussão suave e harmonia brasileira parece quase profética. Hoje, chamaríamos-lhe jazz ambiente ou jazz cinematográfico. Pearson limitava-se a chamar-lhe «arranjos».

Mas, para além da excelência técnica, a modernidade reside na sua inteligência emocional. A sua música é dotada de empatia. Compreende o ritmo interior do ouvinte. É possível deixar-se levar por ela sem se sentir forçado ou pressionado. É essa qualidade — a capacidade de criar um espaço, em vez de uma atuação — que faz com que o seu trabalho pareça tão vivo nos dias de hoje.

Acho que é isso que surpreende as pessoas que o descobrem pela primeira vez. Esperam jazz dos anos 60. Em vez disso, deparam-se com algo atmosférico, sem género definido, tranquilo nos momentos certos e terno da forma certa. Algo que poderia ter sido gravado no ano passado, se o ano passado tivesse tido mais paciência.

Duke Pearson não procurava a inovação. Simplesmente confiava no tom. E, ao fazê-lo, acabou por soar mais como o nosso tempo do que como o seu próprio.

Talvez essa seja a forma mais elevada de modernismo — criar algo tão em sintonia com os sentimentos humanos que as décadas desaparecem assim que o disco começa a tocar.


Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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