É o que nos faz avançar — Stevie Wonder e o otimismo de ouvir

É o que nos faz avançar — Stevie Wonder e o otimismo de ouvir

O álbum «Songs in the Key of Life», de Stevie Wonder, torna-se uma reflexão sobre o otimismo e o avanço — um ensaio sobre como a escuta consciente pode ampliar a convicção, a resiliência e a estrutura da sua vida.

Por Rafi Mercer

Há momentos em que a música não se limita a chegar até ti — ela comove-te.

Não de lado, em direção à nostalgia.
Não para trás, em direção à memória.
Mas para a frente.

Tenho estado a pensar nessa frase toda a semana: ela impulsiona-nos para a frente. Porque quando se elimina todo o ruído — as listas de reprodução, as métricas de desempenho, a navegação interminável — é isso que os melhores álbuns realmente fazem. Não se limitam a refletir quem tu és. Expandem quem tu podes vir a ser.

Poucos álbuns personificam isso de forma mais completa do que «Songs in the Key of Life».

Quando Stevie Wonder lançou este álbum em 1976, não apresentou uma obra concisa e minimalista. Ofereceu abundância. Um álbum duplo. Um EP extra. Uma visão panorâmica da vida em todas as suas contradições. Amor e injustiça. Alegria e tristeza. Fé e dúvida. Celebração e confronto.

No entanto, o que mais fica na memória não é o peso disso.

É o otimismo.

É isso que o torna radical.

Porque o otimismo, quando é consciente — quando compreende a escuridão e, mesmo assim, opta pela luz —, não é ingénuo. É desafiador.

«Love’s in Need of Love Today» não começa com um espetáculo, mas sim com um convite. Um apelo gentil. Uma lembrança de que a compaixão não é fraqueza. Num mundo fragmentado, esse sentimento, por si só, parece rebelde. Não é uma rebelião ruidosa. Não é uma rebelião destrutiva. Mas sim uma insistência constante de que a ligação é importante.

Depois, surge o movimento.

«I Wish» transborda energia cinética — memórias de infância transformadas em impulso. «Sir Duke» transborda gratidão, com os metais a brilharem como a luz do dia, prestando homenagem à linhagem dos arquitetos do jazz que construíram o alicerce sobre o qual ele se ergue. Até mesmo «Isn’t She Lovely», uma canção profundamente pessoal, irradia para o exterior. Não se reduz ao sentimentalismo. Celebra a vida como expansão.

É a isto que me refiro quando escrevo sobre a arte de ouvir devagar.

Se reduzirmos este álbum aos seus singles, estamos a simplificá-lo. Mas quando nos sentamos para o ouvir — como deve ser —, algo muda. A sequência das faixas leva-nos numa viagem. As mudanças tonais desafiam-nos. O comentário social em «Village Ghetto Land» recusa o conforto. A devoção de «As» reinterpreta o amor como algo infinito.

Não é um pano de fundo.

É arquitetura.

E a arquitetura altera a forma como nos posicionamos dentro de um espaço.

Ouvir desta forma não é passivo. É um alinhamento. Estás a optar por entrar no espectro emocional de outro ser humano — por mergulhar nas suas perguntas, nas suas convicções, na sua esperança.

Em 1976, os Estados Unidos debatiam-se com a desigualdade, a incerteza económica e o cansaço social. Wonder não negou nada disso. Mas recusou-se a cair no cinismo.

Essa recusa é o que nos faz avançar.

É fácil confundir rebelião com raiva. Mas algumas das formas mais poderosas de rebelião na música são o otimismo sob pressão. A insistência em que a alegria ainda existe. Que a comunidade ainda é importante. Que o amor não está ultrapassado.

Quando falo de ouvir como um ato deliberado, é isto que quero dizer. Optar por ouvir o álbum «Songs in the Key of Life» do início ao fim não é nostalgia. É prática.

Pratique a precisão.
Pratique a empatia.
Pratique a resiliência.

Porque o otimismo não é um estado de espírito.

É uma questão de disciplina.

Percebe-se isso nas harmonias em camadas. No calor do Fender Rhodes. Na elasticidade das linhas de baixo. Na forma como a voz de Wonder transmite urgência sem ceder ao desespero. As texturas parecem vivas. Nada é tímido. Nada parece reduzido.

O álbum não se limita a dizer que a vida é bela.

Diz que a vida é complexa — e, mesmo assim, vale a pena celebrá-la.

Isso é energia para o futuro.

Quando nos sentamos a ouvir música como esta, começamos a perceber algo subtil: a nossa postura muda. A nossa respiração muda. A nossa forma de pensar alarga-se. Sentimo-nos ligados à tradição — aos músicos que nos precederam, às comunidades que moldaram o som, à versão de nós próprios que ainda acredita que a expansão é possível.

E é por isso que o historial certo é importante.

Não se limita a dar-te conforto.

Isso faz-te lembrar que o crescimento é possível.

Então, eis a questão que me tem ocupado — a mesma que tem vindo a moldar as minhas cartas nos últimos tempos:

Que música te liga ao teu coração com tanta intensidade que te faz realmente sentir algo — algo que talvez só compreendas plenamente só mais tarde?

Para mim, álbuns como este não servem apenas de banda sonora para uma época. Eles definem uma orientação. Tornam-se pontos de referência. Antes deste álbum. Depois deste álbum.

Eles incentivam-te a seres mais generoso. Mais aberto. Mais ambicioso na forma como vives e como ouves.

Numa cultura que se alimenta da fragmentação, optar por ouvir um álbum como *Songs in the Key of Life* é um pequeno ato de restauração.

Estás a recuperar o tempo.
A recuperar a atenção.
A recuperar a confiança.

E a convicção — uma convicção serena e firme — é poderosa.

Porque quando a música te faz crescer, levas essa expansão para o resto da tua vida.

Nas conversas.
Nas decisões.
Nos riscos que, de outra forma, talvez evitasse.

O otimismo, quando é merecido, não é fraco.

É uma questão estrutural.

E o álbum certo — ouvido na íntegra, sentido com sinceridade — não se limita a refletir o teu presente.

Isso dá-te um impulso para a frente.


Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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