Masters At Work — O Ritmo que Me Acompanhou Até Casa

Masters At Work — O Ritmo que Me Acompanhou Até Casa

Como as lojas de discos do Soho e a música house de Nova Iorque moldaram toda uma vida de experiências musicais

Por Rafi Mercer

Há ritmos que surgem na nossa vida antes mesmo de sabermos como se chamam.

Ouves-os através do sistema de som da loja, meio abafados pelo barulho de uma tarde de sábado. Um disco é retirado de uma capa algures atrás do balcão. O primeiro golpe do bumbo ressoa com uma certa confiança. As congas percorrem o sulco. Um acorde de Fender Rhodes prolonga-se o tempo suficiente para te fazer parar de vasculhar a caixa seguinte.

Ainda não conheces o produtor.

Basta perceberes o ritmo.

Para muitos de nós, que passámos a nossa juventude a vaguear pelas lojas de discos do Soho, esse ritmo pertencia frequentemente aos Masters At Work.

Antes de os nomes Louie Vega e Kenny Dope terem a autoridade discreta que têm hoje, os seus discos faziam simplesmente parte do fluxo de importações que chegavam semanalmente de Nova Iorque. Singles de doze polegadas com etiquetas de editoras independentes que transmitiam um certo mistério — Nervous Records, MAW Records, etiquetas brancas com quase nenhuma informação. Discos que atravessavam o Atlântico e chegavam diretamente às cabines de audição e aos gira-discos dos balcões de Londres.

As próprias lojas faziam parte da música.

O Soho, naquela época, era um espaço marcado pelo ritmo. Podia-se começar a tarde na Soul Jazz Records, onde as seleções alternavam com naturalidade entre reggae, jazz latino e deep soul. A poucas ruas de distância, outra loja dedicava-se mais às importações de house. Mais adiante, num sítio como a Quaff Records, podia-se encontrar um ou outro disco de dança de 12 polegadas espreitado entre descobertas inesperadas.

Não é que tenhas chegado necessariamente com um plano.

Simplesmente foste a pé.

Cada loja tinha o seu próprio sistema de som. Cada balcão tinha os seus próprios curadores. Alguém atrás das mesas de mistura passava uma música nova e a gente parava a meio da caixa, com a mão suspensa sobre uma capa, enquanto ouvia com mais atenção.

Esses momentos moldaram o gosto mais do que qualquer algoritmo alguma vez poderia fazer.

O meu próprio ritual incluía, por vezes, uma estranha troca de moeda. Os cartuchos da Sega Mega Drive eram trocados no balcão por discos. Os jogos que tinham preenchido as noites em casa transformavam-se silenciosamente em vinil que ficaria nas prateleiras durante décadas. Na altura, parecia um negócio perfeitamente lógico — trocar píxeis por ritmo.

E, algures no meio dessas conversas, o som dos Masters At Work começou a entrelaçar-se nas tardes.

O que tornava os seus discos únicos nunca foi apenas a batida. Muitos produtores de house conseguiam criar um groove eficaz. O que o Louie Vega e o Kenny Dope trouxeram foi algo completamente diferente: talento musical.

Os seus discos pareciam ter vida própria.

Congas, percussão latina, acordes de Rhodes, linhas de baixo que fluíam em vez de serem marcantes. Até a bateria parecia humana, movendo-se com uma naturalidade que sugeria músicos em vez de máquinas. Dava para ouvir a linhagem que se estendia para o passado — música latina de Nova Iorque, orquestras de disco, sessões de jazz-funk, harmonias de gospel — tudo integrado na estrutura da música house.

Quando ouvia um disco dos Masters At Work numa loja, muitas vezes percebia logo, em poucos segundos.

O ritmo tinha peso.

Mas talvez o mais importante seja que os discos transmitiam generosidade. Foram concebidos a pensar no espaço — o tipo de arranjos que permitiam aos DJs deixar a faixa tocar durante oito ou dez minutos, enquanto a sala entrava lentamente no ritmo.

Nas lojas de discos do Soho que realmente contavam.

As estações de audição não serviam apenas para ouvir excertos rápidos. Eram verdadeiras salas de aula do som. As pessoas ficavam em silêncio, com os auscultadores postos, a absorver os detalhes de uma mistura. O crepitar do vinil, as mudanças subtis na percussão, a forma como uma linha de baixo surgia a meio da faixa.

Foi aqui que o ritmo começou a dar forma a uma vida.

Aprendeste que os discos não eram apenas objetos, mas sim conversas. Um disco de doze polegadas dos Masters At Work podia estar ao lado de uma reedição de jazz brasileiro, o que, por sua vez, podia levar-te a um disco de afrobeat ou a um cantor de soul esquecido de Detroit. As próprias caixas tornaram-se mapas, com cada descoberta a apontar para a seguinte.

Com o passar do tempo, percebeste que as lojas de discos tinham vindo a fazer algo mais profundo.

Estavam a treinar o teu ouvido.

Os Masters At Work foram os professores perfeitos para essa aprendizagem. Os seus discos tinham profundidade suficiente para merecerem ser ouvidos repetidamente, mas também calor suficiente para se manterem acessíveis. Podiam dar vida a uma pista de dança, mas também podiam dar vida a um gira-discos em casa, enchendo a sala com aquela mistura inconfundível de ritmo e soul.

Décadas mais tarde, quando o nome deles volta a aparecer num novo projeto — talvez ao lado de uma figura como Brian Jackson —, a ligação parece natural, em vez de surpreendente. A mesma linguagem musical continua a atravessar gerações.

Os acordes de Rhodes continuam a brilhar. A percussão continua a mover-se com aquele swing familiar. O groove continua a saber o que é a paciência.

E algures na memória desses sons reside a geografia do Soho.

As escadas estreitas que descem até às lojas na cave. O cheiro das capas de cartão e dos discos de vinil recém-abertos. O aceno discreto da pessoa atrás do balcão quando um disco particularmente bom era colocado no gira-discos.

Esses locais faziam mais do que apenas vender música.

Eles sincronizaram o ritmo.

Mesmo agora, muito tempo depois de os cartuchos da Sega terem desaparecido e das próprias lojas terem mudado, o efeito permanece. Surge um determinado padrão de bateria e o corpo reconhece-o instantaneamente. Um padrão de conga pressiona suavemente os limites da batida e sentimos a mesma pausa instintiva que outrora ocorria a meio de uma caixa de discos.

Esse é o legado discreto dos Masters At Work.

Não apenas os discos que lançaram, mas os ritmos que colocaram em circulação — ritmos que atravessaram oceanos, chegaram às lojas de discos e, discretamente, transformaram a forma como uma geração aprendeu a ouvir.

Quando esses ritmos entram na tua vida, raramente desaparecem.

Eles simplesmente continuam a jogar.


Perguntas rápidas

Quem são os Masters At Work?
A lendária dupla de house nova-iorquina Louie Vega e Kenny Dope, conhecida por combinar música house com percussão latina, harmonias de jazz e vozes cheias de alma.

Por que é que os discos deles eram importantes em Londres?
No início da década de 1990, as lojas de discos do Soho importavam semanalmente música house de Nova Iorque, tornando o MAW um som marcante para DJs e colecionadores de discos.

Por que é que os seus álbuns continuam a ter impacto até hoje?
As suas produções destacam a mestria musical, o ritmo e o calor — qualidades que se revelam gratificantes tanto na pista de dança como na audição atenta.


Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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