Paris, sem reservas
Em busca do som, encontrei uma cidade que oferecia tudo: ritmo, beleza, loucura e o silêncio do amanhecer.
Por Rafi Mercer
Há noites que se desenrolam como um rolo de fita — imprevisíveis, imperfeitas, belas. Noites em que deixamos de planear e nos deixamos levar pela cidade. Para mim, Paris foi uma dessas noites. Fui até lá em busca de som. Não daquele tipo polido que se reserva com antecedência, nem da programação de festivais escolhida meses antes, mas de algo cru, inesperado, vivo. Estava inquieta, sem âncora e disposta a deixar que a cidade decidisse.
Paris sempre prometeu música. Tem sido um refúgio e um palco: Josephine Baker a deslumbrar a década de 1920, Django Reinhardt a fazer as cordas produzirem padrões impossíveis, Miles Davis a encontrar tanto o amor como o exílio. A Margem Esquerda deu ao mundo a chanson, a Margem Direita o cabaré e, nas caves de Pigalle, os amplificadores ainda zumbem com possibilidades. Mas o som que encontrei naquela noite não era histórico. Era imediato.
Tudo começou num telhado. Uma daquelas noites em que a cidade parece tão próxima que quase se pode tocar nela, com a Torre Eiffel a brilhar, não como um cliché, mas sim como um metrónomo. À minha volta, uma multidão que parecia incrivelmente elegante, daquela forma que só os parisienses conseguem — camisas de linho sem rugas, apesar do calor, vestidos a captar a última luz do dia, cigarros segurados como se fossem sinais de pontuação. Um DJ tocava discos que oscilavam entre o house e algo mais descontraído, com as linhas de baixo a deslizarem por baixo das conversas e as batidas a fazerem as bebidas dançarem. Não estava alto; estava bem afinado. A própria cidade servia de acompanhamento, com o zumbido das scooters e o riso das ruas lá em baixo.
A partir daí, a noite foi ganhando força. Um bar levava a outro, cada um com o seu próprio ritmo. Um pequeno bar clandestino com jazz a tocar em discos de vinil gastos, «Naima», de Coltrane, a infiltrar-se através do fumo. Uma discoteca junto ao canal, toda em néon e ritmo, onde um remix de «Could Heaven Ever Be Like This», de Idris Muhammad, fazia a pista tremer de alegria. Um café ainda aberto às três da manhã, com a jukebox a tocar «Histoire de Melody Nelson», de Serge Gainsbourg, e metade da sala a cantar junto como se fosse um hino secreto. A cidade era um festival sem barreiras, cada sala um novo palco, cada passeio um novo intervalo.
O tempo esvaiu-se. Deixei de contar as bebidas, deixei de prestar atenção às ruas, deixei de olhar para o relógio. Fiquei acordado 20 horas, depois 30, depois 40, levado pelo ritmo e pela companhia. Paris deu-me tudo: paixão, energia, som, amor, alegria, tranquilidade. Deu-me a embriaguez da rendição — à música, às pessoas, à indefinição entre elas. Foi uma lembrança de que todas as cidades, se nos deixarmos levar, são inebriantes. Berlim, com o seu baixo implacável. Tóquio, com a sua fidelidade silenciosa. Nova Iorque, com a sua trompete arrogante. Paris, com a sua banda sonora em camadas de elegância e caos.
E depois, o final. Um táxi para o aeroporto, o amanhecer a surgir, a cidade a ficar em silêncio à medida que a noite se esvaía. O motorista pôs música a tocar e as primeiras notas de «The Spoils», dos Massive Attack, encheram o carro. Aquela canção — lenta, pesada, bela, assombrosa — foi a última coisa que ouvi antes de o sono me dominar. Levou-me até ao avião, através das nuvens, para além do cansaço. Foi o final perfeito: não o clímax da noite, mas o peso da sua memória.
O que fica comigo não é apenas a música, mas o momento certo. A forma como uma cidade pode servir de banda sonora à nossa vida, se a deixarmos. A forma como uma canção, no momento certo, deixa de ser apenas um pano de fundo para se tornar um ponto de referência. Os bares dedicados à música tentam criar isto deliberadamente — espaços concebidos para esses momentos. Mas, por vezes, tal como naquela noite em Paris, acontece por acaso, e é ainda mais intenso.
O som tem o poder de definir uma experiência. Aquela noite em Paris fez-me lembrar porque é que o procuro. Não por uma questão de controlo, nem de perfeição, mas sim de entrega. Pela possibilidade de, num bar num telhado, numa discoteca à beira do canal, num táxi ao amanhecer, ouvires algo que mude tudo.
E se me perguntares como soa Paris, dir-te-ei: soa a alegria a transbordar para a rua, a Coltrane sussurrado através do fumo, a Idris Muhammad a fundir-se com a dança, a Gainsbourg cantado às três da manhã. Mas, acima de tudo, soa a «The Spoils», dos Massive Attack, a tocar enquanto adormecia após 46 horas acordado, levando-me de volta para casa.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais artigos da secção «Tracks & Tales»,subscreva ou clique aqui para ler mais.