Sade — Love Deluxe (1992)

Sade — Love Deluxe (1992)

Um álbum que transforma o dia num momento mais tranquilo, mais acolhedor e mais ponderado.

Por Rafi Mercer

Há álbuns que entram na nossa vida com drama e há aqueles que chegam tal como o tempo — discretamente, inevitavelmente, como se sempre tivessem feito parte dela. «Love Deluxe» é um desses últimos. Sempre que volto a ouvi-lo, acontece a mesma coisa: o dia abranda. As arestas suavizam-se. A sala respira. Sentimos, quase instantaneamente, que alguém baixou a intensidade emocional.

Começa com «No Ordinary Love», uma faixa que mais parece uma maré do que uma canção. Primeiro, a linha de baixo, paciente e sem pressa. Depois, aquela guitarra, cintilante como o calor sobre a água. E a voz de Sade — serena, elegante, controlada — a deslizar pelo espaço com aquele tipo de autoridade emocional que só se nota quando nos apercebemos do quão profundamente nos tocou. Poucos álbuns começam com uma presença tão tranquila. É o som de um mundo a ser construído à tua volta.

Lembro-me de ouvir «Love Deluxe» pela primeira vez no início dos anos 90, quando trabalhava longas jornadas na Virgin. Não era o tipo de disco pelo qual as pessoas faziam fila à hora de abertura. Não chegou acompanhado de frenesi. Entrou discretamente na loja, nos altifalantes, na rotação musical dos funcionários — e depois, sem darmos por isso, na arquitetura permanente da loja. Era música que se punha quando se precisava que todo o espaço ouvisse de forma diferente. Mesmo agora, décadas depois, dou por mim a recorrer a ele pela mesma razão: muda a atmosfera de uma sala com uma precisão quase cirúrgica.

O que faz com que o álbum perdure não é, porém, a nostalgia. É o seu design. Estas canções são criadas com um minimalismo que beira a arquitetura. A percussão é disposta como pedras cuidadosamente colocadas. Os pads de sintetizador pairam no ar, em vez de se imporem. Os espaços entre as notas parecem tão intencionais quanto as próprias notas. Smooth jazz, soul, R&B — nenhum destes rótulos consegue captar totalmente o que a Sade e a sua banda alcançam aqui. Trata-se de um estado de espírito como matéria. A emoção como geometria.

«Feel No Pain» transmite uma espécie de tristeza política discreta, mas o ritmo é tão suave que parece algo que se absorve pela pele. «Like a Tattoo» pode ser uma das canções mais silenciosamente devastadoras do seu repertório: íntima, fantasmagórica, com linhas melódicas que caem como a respiração. «Cherish the Day» é o momento em que o álbum se eleva — aberto, acolhedor, devocional. Ouve-a no final da tarde e ela vai redefinir tudo o que pensavas que a noite poderia ser.

Existe a crença de que os álbuns minimalistas envelhecem rapidamente — que a contenção pertence a uma era passada da produção musical. O «Love Deluxe» desmente essa ideia sempre que o ouvimos. O seu poder não reside na complexidade, mas sim na clareza. A banda dá a cada elemento espaço para se expressar. E, nesse espaço, o álbum parece recém-lançado de cada vez, como se estivesse a ouvir-nos, a adaptar-se ao nosso estado de espírito, oferecendo exatamente a temperatura emocional de que não sabíamos que precisávamos.

O que mais adoro é a naturalidade de tudo isto. Este álbum não finge intimidade — simplesmente cria-a. Aqui não há teatralidade, nem busca de atenção, nem qualquer tentativa de impressionar. É a confiança na sua forma mais discreta: um grupo de músicos totalmente seguros do seu tom, do seu ritmo, da sua verdade. Numa cultura que muitas vezes confunde o volume com a importância, *Love Deluxe* parece uma recusa suave, mas decisiva.

Há discos que se põem para preencher o silêncio e há discos que fazem com que o silêncio pareça significativo. Este pertence à segunda categoria. É o som de fechar uma porta atrás de si no final de um longo dia. O zumbido de um candeeiro. O ritual de servir uma bebida mais lentamente do que o habitual. A pequena cerimónia de se reconectar consigo mesmo.

Estou convencido de que toda a gente precisa de um álbum como este — um companheiro musical que nos ajude a reequilibrar o dia. Algo que nos devolva àquela versão de nós próprios que não está apressada, dispersa nem a tentar acompanhar o ritmo do mundo. A versão que respira plenamente. A versão que sente.

E talvez seja por isso que o *Love Deluxe* nunca saiu de órbita. Porque, independentemente do ano, da década ou do barulho lá fora, haverá sempre momentos em que o que precisas é de um disco que não te salve, mas que te ajude a reencontrar o teu equilíbrio.

É isso que este álbum faz. Suaviza o dia. Traz tranquilidade ao ambiente. Aconchega-te — sem insistir em ser abraçado.


Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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