O ouvido é político — Por que razão ouvir sempre foi um ato silencioso de poder
O ato de ouvir sempre foi político.
Por Rafi Mercer
Estamos habituados a pensar na política como algo que se diz em voz alta — discursos, slogans, argumentos aperfeiçoados para a transmissão televisiva. Mas a maior parte da política não começa pela boca. Começa pelo ouvido.
O que somos ensinados a ouvir. O que somos encorajados a ignorar. O que tem espaço e o que é empurrado para as margens. Ouvir nunca é neutro. Nunca o foi.

No início da década de 1990, isto era mais fácil de sentir do que de expressar. A Europa estava a reinventar-se — no período pós-Guerra Fria, antes da Internet, num processo de transição entre identidades. As fronteiras estavam a tornar-se mais flexíveis do ponto de vista cultural, mesmo enquanto se tornavam mais rígidas do ponto de vista administrativo. E a música, como costuma acontecer, percebeu essa mudança antes que a linguagem conseguisse acompanhá-la.
Álbuns como «Prose Combat», de MC Solaar, não se apresentavam como declarações políticas. Nem precisavam de o fazer. A sua dimensão política residia naforma como soavam, e não no que declaravam. A contenção. A recusa em gritar. A confiança para falar ao próprio ritmo, em vez de recorrer ao volume de outra pessoa.
O hip-hop chegou à Europa trazendo consigo a urgência americana — necessária, vital, forjada na luta. Mas algo mais aconteceu assim que se instalou nos espaços europeus. A música abrandou ligeiramente. Surgiu um espaço entre as frases. A linguagem tornou-se menos confrontacional e mais coloquial. O ouvido foi convidado a entrar, em vez de ser oprimido.
Esse convite é importante.
Porque ouvir — ouvir de verdade — requer paciência. Exige que aceitemos a complexidade. Resiste ao binário. E isso, discretamente, é uma posição política.
Em Paris, Londres, Bruxelas e Berlim, os géneros começaram a fundir-se uns nos outros. O jazz foi-se misturando com o hip hop. O soul suavizou a música eletrónica. As discotecas passaram a ser locais não só de descontração, mas também de convívio. O ritmo de vida continuava acelerado, mas o foco mudou. Os discos passaram a ser feitos para serem vividos, e não para serem consumidos e deitados fora.
Isto não era nostalgia. Era design.
Criar um som que deixa espaço é confiar no ouvinte. É acreditar que ele é capaz de perceber as nuances. Essa convicção vai contra a política de massas, que depende da simplificação, da repetição e da urgência. A escuta lenta, em contrapartida, pressupõe inteligência. Pressupõe autonomia.
É por isso que o ouvido sempre foi um local de controlo.
Os Estados regulam as quotas de rádio. Os algoritmos decidem o que é destacado e o que é ocultado. As plataformas premiam o volume, a indignação e a rapidez. A política da audição hoje em dia está enraizada nos feeds, na compressão e na reprodução automática — sistemas concebidos para manter o ouvido ocupado, em vez de atento.
Nesse contexto, a forma como escolhemos ouvir torna-se um ato de resistência silenciosa.
Quando um álbum como o «Prose Combat» integra a linguagem na mistura, em vez de a colocar por cima dela, altera-se a dinâmica de poder. O ouvinte envolve-se. Participa. O significado é co-criado, em vez de ser simplesmente transmitido. O ouvinte deixa de ser um recetor passivo para se tornar uma presença ativa.
Essa ideia — ouvir como forma de participação — vai muito além da música.
Dá forma à forma como nos deslocamos pelas cidades. Quer ouçamos o ritmo de um lugar ou apenas o seu ruído. Quer reparemos em como o som reflete a desigualdade, a proximidade, o cuidado. Quer reconheçamos o silêncio como algo planeado ou como algo negado.
À maioria das pessoas nunca lhes foi ensinado a considerar a escuta como algo significativo. É vista como algo passivo, secundário e meramente decorativo. No entanto, todas as culturas compreendem, instintivamente, que controlar o som é controlar o comportamento. É por isso que certas vozes são amplificadas e outras são silenciadas. É por isso que a rapidez é recompensada e a reflexão parece radical.
Ouvir devagar é sair dessa rotina, mesmo que por breves instantes.
Isso não significa afastar-se do mundo. Significa envolver-se de forma diferente. Escolher discos que não nos apressem. Espaços que permitam que o som respire. Conversas que não se reduzam a slogans.
Nesse sentido, ouvir torna-se uma forma de orientação. Uma forma de se situar tanto a nível ético como estético.
A política do futuro poderá ser travada de forma ruidosa. Mas será também moldada discretamente — pelo que deixamos entrar nos nossos ouvidos, pelo tempo que dedicamos a isso e pela forma como encaramos a escuta: como consumo ou como cuidado.
O ouvido lembra-se do que a boca esquece.
E se voltarmos a aprender a ouvir com atenção — a música, os lugares, uns aos outros —, talvez descubramos que algumas das formas de resistência mais significativas não requerem qualquer volume.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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