O Ritmo em Todo o Lado: Aprender a Ouvir num Bar de Escuta

O Ritmo em Todo o Lado: Aprender a Ouvir num Bar de Escuta

Por Rafi Mercer

O ritmo está em todo o lado. Isto não é poesia, mas sim um facto. O tique-taque de um semáforo de passagem de peões, o balanço dos passos no pavimento, a subida e descida do tom de uma conversa, o pingar da chuva contra o vidro — tudo isto tem um ritmo. Na maioria das vezes, não nos apercebemos disso. Os padrões confundem-se com o fundo, misturando-se no ruído mais amplo da vida. Mas se parares, se ouvires, consegues encontrá-lo. Ouvir o ritmo em tudo é uma habilidade. E, tal como todas as habilidades, pode ser aprendida.

Para mim, é no bar de audição que essa competência se aperfeiçoa. Basta entrar e o mundo lá fora fica para trás. A sala fica em silêncio, as luzes baixam e um álbum começa. Não é uma lista de reprodução, nem uma reprodução aleatória, mas sim um disco, lado um, faixa um. O sistema de som está afinado, as colunas posicionadas, a atmosfera carregada de presença. O que acontece naquele espaço não é apenas musical. É educativo. Estás a aprender a ouvir.

A origem desta prática remonta ao Japão, nos «kissaten» de jazz das décadas de 1950 e 1960. Eram cafés onde o silêncio era obrigatório, onde os discos eram o centro das atenções e onde a qualidade do som importava mais do que a conversa. Estudantes, trabalhadores, transeuntes — sentavam-se, pediam café ou uísque e ouviam álbuns importados em sistemas de som muito superiores aos que podiam comprar para ter em casa. Coltrane, Mingus, Evans, Ellington — tocados em volume alto, tocados na íntegra, tocados com cuidado. Naqueles espaços, as pessoas aprenderam a ouvir. Descobriram não só o jazz, mas o próprio ritmo.

E o ritmo no jazz não é simples. É sincopação, ênfase fora do tempo, swing. É a tensão entre um pulso constante e um acento variável. É o som da liberdade enquadrado por uma estrutura. Ouça Art Blakey e os Jazz Messengers em «Moanin’» (1958) e ouvirá o ritmo como uma arquitetura — a bateria a servir de âncora e, ao mesmo tempo, a provocar, os metais a cavalgar ondas de empurrar e puxar. Ou coloque «Sunday at the Village Vanguard» (1961), de Bill Evans, no gira-discos e repare como o contrabaixo de Scott LaFaro e a bateria de Paul Motian tecem contra-ritmos sob o piano de Evans, criando uma textura que é mais respiração do que batida. Estes álbuns não são apenas música; são lições de ritmo.

O que uma «barra de audição» faz é amplificar essas lições. Ao eliminar o ruído de fundo e ao reproduzir música com alta fidelidade e volume, permite-te concentrar-te. Começas a ouvir não só a linha principal, mas também as subtilezas. As notas fantasmas na caixa. A forma como o baixista se atrasa ligeiramente em relação à batida. O intervalo de tempo num golpe prolongado de prato. Começas a perceber que o ritmo não é apenas o andamento, mas sim uma conversa.

E assim que aprendemos a ouvi-lo, começamos a ouvi-lo em todo o lado. Um comboio a entrar numa estação tem um balanço próprio, metálico mas inconfundível. Um café cheio de chávenas a tilintar transmite uma textura de bateria escovada, se nos concentrarmos. Até o silêncio tem ritmo — os intervalos entre os sons formam padrões próprios. O jazz treina-nos para reparar nisso, porque o jazz assenta na arte de reparar. Músicos a ouvirem-se uns aos outros em tempo real, a responderem, a deixarem espaço, a preencherem espaço. É um ritmo coletivo, improvisado mas partilhado.

É por isso que os bares de audição são importantes. Não são apenas espaços dedicados à música, mas também à treinação da atenção. Tornam a audição ativa, e não passiva. Convidam-nos a inclinar-nos para a frente, a ficar quietos, a descobrir o ritmo por baixo da superfície. Num mundo concebido para distrair, isso é um convite radical.

O ritmo nem sempre é óbvio. Veja-se o álbum *Power of Soul* (1974), de Idris Muhammad. O groove é denso, constante, quase hipnótico, mas contém pequenas variações — o hi-hat a abrir ligeiramente, o bumbo a marcar com mais força em certas batidas. São esses detalhes que fazem a diferença entre um loop e uma interpretação. Ou ouça *Nina Simone and Piano!* (1969), de Nina Simone. O ritmo não está na bateria nem no baixo, mas no fraseado da sua voz, nas pausas entre os acordes de piano. Os espaços que ela deixa são tão rítmicos quanto as notas que toca. Um «bar de audição» ensina-nos a captar esses espaços.

E então, quando voltas a sair para a rua, a própria cidade transforma-se em música. Os semáforos piscam ao ritmo da batida, os passos alinham-se em contraponto, o vento agita um letreiro solto como se fosse uma caixa. Começas a ouvir o quotidiano como se fosse uma composição. A própria vida transforma-se num disco de jazz — desordenada, sincopada, improvisada.

Para mim, este é o verdadeiro dom do bar de audição. Não só porque te oferece álbuns no seu melhor, mas também porque recalibra os teus ouvidos. Sintoniza-te com o ritmo. Torna-te mais consciente. E, assim que adquieres essa consciência, passas a viver de forma diferente. O mundo parece menos ruído e mais música.

Os «kissaten» de jazz sabiam disso. Nunca foram apenas cafés. Eram escolas de atenção. Deram às pessoas que não tinham meios para comprar discos ou aparelhos de alta fidelidade a oportunidade de aprender a ouvir. Criaram comunidades em torno do silêncio e do som. Provaram que o ritmo não era propriedade dos músicos, mas de todos aqueles que estivessem dispostos a ouvir.

Os bares de audição de hoje herdam essa ética. Não são recriações nostálgicas, mas sim salas de aula vivas. Lembram-nos que ouvir é uma competência e que o ritmo está em todo o lado. E oferecem-nos álbuns como guias. «Ah Um» de Mingus (1959). «Crescent» de Coltrane (1964). «The Epic» de Kamasi Washington (2015). Álbuns em que o ritmo não é um pano de fundo, mas sim uma presença, ensinando-nos, nota a nota, a ouvir.

Por isso, da próxima vez que entrares num bar de audição, lembra-te disto: não estás lá apenas para beber e relaxar. Estás lá para praticar. Para aprender. Para aperfeiçoar a arte de ouvir. Para descobrir o ritmo na música e, depois, levá-lo para o mundo lá fora. Pois, assim que começas a ouvir, o ritmo revela-se em todo o lado. E, uma vez que o conheces, já não podes voltar a ver o silêncio como um vazio. O próprio silêncio torna-se ritmo, à espera de ser ouvido.

Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais artigos da secção «Tracks & Tales»,subscreva ou clique aqui para ler mais

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Não é uma lista de reprodução.

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