A geometria do som: por que razão as colunas são mais importantes do que as listas de reprodução
Por Rafi Mercer
Vivemos numa cultura obcecada por listas de reprodução. Milhares delas, reproduzidas aleatoriamente e percorridas sem parar, cada uma prometendo a banda sonora perfeita para cada estado de espírito. No entanto, a verdade é que o dispositivo através do qual ouvimos muitas vezes molda a experiência de forma mais profunda do que as próprias canções. Um altifalante não é neutro. Ele distorce o som, esculpe-o, projeta-o na sala com uma geometria específica. Num bar de audição, onde os altifalantes são escolhidos com uma devoção quase religiosa, esta verdade torna-se impossível de ignorar.
Pense nisto desta forma: a música não é apenas uma sequência de notas, mas um acontecimento espacial. Um contrabaixo ressoa para baixo, uma trompete projeta-se para a frente, os pratos espalham a luz como se fosse água. Uma coluna bem concebida preserva esta geometria, traduzindo o ato físico da interpretação no ar de uma sala. Uma coluna de má qualidade achata-a, deixando tudo na mesma dimensão, como uma fotografia sem profundidade.
É por isso que tantos bares de audição tratam os seus sistemas como esculturas. No JBS, em Tóquio, as prateleiras de discos de vinil combinam-se com colunas que se erguem como monumentos, enchendo a sala estreita com a sua presença. No Brilliant Corners, em Londres, as Klipschorns aninham-se nos cantos, com o seu design com corneta a projetar o som para o espaço com um toque arquitetónico. No Public Records, em Brooklyn, o sistema é afinado com o mesmo cuidado que a ementa de cocktails, sendo cada frequência ajustada até que a própria sala cante.
As listas de reprodução mudam diariamente; as colunas permanecem. Transportam a sua personalidade de disco para disco, imprimindo a sua marca em tudo o que se ouve. Um sistema com um som muito quente faz com que Bill Evans soe íntimo, próximo; um sistema com agudos cristalinos faz com que Philip Glass brilhe como o próprio vidro. Desta forma, as colunas tornam-se instrumentos por direito próprio.
É fácil esquecer isto quando se ouve com auriculares, onde o som fica confinado a uma proximidade limitada. Mas basta entrar numa sala com colunas de grande formato para descobrir uma verdade diferente: que o som tem peso, dimensão e direção. Não se ouve apenas um disco; entra-se nele. Percorre-se a sua arquitetura, percebendo formas e detalhes que uma simples lista de reprodução não consegue proporcionar.
É por isso que a geometria do som é mais importante do que a seleção das músicas. Uma lista de reprodução pode oferecer a seleção certa, mas só um altifalante consegue revelar a profundidade do que está ali. É a diferença entre ler uma lista de ingredientes e provar o prato. Uma dá-nos nomes; a outra dá-nos sabor, textura e corpo.
Por isso, da próxima vez que te vires a ajustar uma lista de reprodução, considera, em vez disso, ajustar a tua sala. Muda a posição das colunas, altera o ângulo, experimenta com as superfícies à sua volta. Vais descobrir que a mesma música, de repente, ganha novas dimensões. No fim de contas, a arte de ouvir não consiste em adicionar mais músicas, mas sim em dar às que já adoras o espaço para respirarem.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais artigos da rubrica «Tracks & Tales», subscreva ou clique aqui para ler mais.