O Luxo de Ouvir — Por que é que teve de se chamar assim

O Luxo de Ouvir — Por que é que teve de se chamar assim

Por que razão «O Luxo de Ouvir» só poderia chamar-se assim — um ensaio reflexivo sobre a atenção, a moderação e a razão pela qual ouvir se tornou uma das experiências mais raras e valiosas da vida moderna.

Por Rafi Mercer

Não intitulei o livro «O Luxo de Ouvir» porque ainda não está terminado, impresso nem encadernado. As palavras estão escritas, a estrutura está completa, mas o próprio objeto ainda se encontra naquele espaço intermédio — já não é uma ideia, mas ainda não é algo que se possa segurar nas mãos. E talvez seja precisamente por isso que o título me pareça adequado neste momento.

Não o escolhi porque ouvir custa caro. Escolhi-o porque ouvir tornou-se algo raro.

O luxo, quando bem compreendido, não tem a ver com o preço. Tem a ver com condições. Espaço. Tempo. Atenção. A capacidade de escolher como vivenciar algo, em vez de que isso nos seja imposto. Nesse sentido, ouvir — ouvir de verdade — já pertence à categoria do escasso.

Vivemos num mundo saturado de som, mas carente de escuta. A música está em todo o lado, mas quase em lado nenhum. Toca enquanto percorremos os ecrãs, enquanto corremos de um lado para o outro, enquanto vivemos a meio caminho entre as nossas obrigações. O que desaparece nesse processo não é a música em si, mas a nossa relação com ela. A escuta perde a intenção. Torna-se algo secundário.

Este livro existe para contrariar suavemente essa tendência.

Quando comecei a escrever *The Luxury of Listening*, não estava a tentar cunhar uma expressão nem a definir um movimento. Estava a tentar dar um nome a algo com que me deparava constantemente em salas, bares, cafés, de madrugada e à noite — momentos em que o som alterava a atmosfera de um espaço e, por breves instantes, o ritmo da vida. Não acontecia nada de dramático. Nem clímax, nem espetáculo. Apenas harmonia. A sensação de que as coisas estavam na ordem certa.

O luxo, neste contexto, não é excesso. É moderação. É escolher menos discos e reproduzi-los como deve ser. Menos divisões, mas divisões que fazem a diferença. Menos palavras, mas palavras que marcam. Ouvir bem requer design — do espaço, dos sistemas, dos hábitos. E o design, quando bem feito, parece sempre simples visto de fora.

O título contém também uma provocação discreta. Chamar à «escuta» um luxo levanta uma questão: se isto é agora um luxo, o que é que permitimos que se tornasse normal? Interrupções constantes. Ruído interminável. Velocidade sem direção. O livro não é nostálgico, nem é antitecnológico. É simplesmente honesto quanto ao custo da distração — e ao valor da atenção.

Há outra razão pela qual o título era importante. O luxo implica responsabilidade. Se algo é precioso, trata-se com cuidado. Não se apressa. Não se desvaloriza. Transmite-se intacto. O ato de ouvir, encarado desta forma, torna-se uma questão cultural, em vez de um ato de consumo. Une as pessoas, em vez de as isolar.

É por isso que isto não é um manifesto nem um guia no sentido habitual. É uma coleção de momentos, espaços, discos e reflexões — unidos pela convicção de que a forma como ouvimos molda a forma como vivemos. O luxo não é o vinil, o sistema de som ou o bar. O luxo é a decisão de abrandar o ritmo e permanecer presente o tempo suficiente para que o som faça o seu efeito.

Terminar o texto não me pareceu um fim. Pareceu-me um limiar. Assim que as palavras existem, levantam questões diferentes. Sobre a forma. Sobre o cuidado. Sobre se o objeto em que se transformam fará jus à atenção que lhes foi dedicada. A impressão, o papel, o peso, o ritmo — não são pormenores secundários. São a continuação da escuta, apenas noutro meio.

O título mantém-se porque diz a verdade. Ouvir já não é algo secundário. É uma escolha. E optar por isso, deliberadamente, continua a ser um dos luxos mais discretos — e mais significativos — que ainda nos restam.


Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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