The Rave Frequency — 1989 a 1992 e o som da libertação

The Rave Frequency — 1989 a 1992 e o som da libertação

Por Rafi Mercer

Há certos anos que ressoam de forma diferente na história — momentos em que o som e a política se fundem de tal forma que se tornam indistinguíveis. Entre 1989 e 1992, a Grã-Bretanha vibrou a uma frequência que ainda não se esvaiu por completo. O rave foi mais do que um movimento juvenil. Foi um ato de rebeldia coletiva — uma revolta sonora disfarçada de festa.

Se estiveste lá, vais lembrar-te da sensação antes de mais nada. O cheiro da chuva na lona, os graves a ecoarem pelos campos, o brilho dos geradores ao longe. Conduzias durante horas, seguindo rumores e indicações meio encravadas, partilhadas em cabines telefónicas ou lojas de discos. E quando finalmente chegavas — uma pedreira, um celeiro, um aeródromo à saída da M25 — sentias o país a mudar. Não através de slogans ou discursos, mas através do ritmo.

O final dos anos 80 foi um período instável. A Grã-Bretanha de Thatcher tinha despojado as comunidades; as fábricas fecharam, os futuros encolheram. Mas a tecnologia democratizou silenciosamente a rebelião. Máquinas de bateria, samplers e sintetizadores baratos deram aos jovens os meios para inventarem a sua própria cultura. A música que surgiu — acid house, hardcore, breakbeat — era crua, extática e obstinadamente esperançosa. Não esperou por autorização. Construiu a sua própria autorização a partir do baixo e da convicção.

Naquela altura, conhecia alguns membros do Spiral Tribe — fora-da-lei excêntricos e divertidos dos arredores de Londres, que encaravam as raves menos como vida noturna e mais como arquitetura nómada. Apareciam no horizonte como miragens: comboios de carrinhas surras, sistemas de som presos com fita adesiva e a sensação de que as regras eram meras sugestões. Para quem estava de fora, pareciam anárquicos; para quem os conhecia, eram construtores de comunidades. Montavam o equipamento num campo e, em menos de uma hora, o campo transformava-se — estranhos tornavam-se cidadãos do som. A Spiral Tribe acreditava que a música era um direito, não um produto, e, durante alguns anos fugazes, provaram-no.

Aquelas noites eram o que a Grã-Bretanha tinha de mais próximo de uma utopia temporária. A política estava implícita. Sem líderes, sem hierarquias, sem publicidade. Apenas movimento. Era a ética «faça você mesmo» do punk a renascer através da tecnologia — igualitária, conectada, antiautoritária. Não se ia a uma rave para ser visto; ia-se para desaparecer na frequência. A rave era democracia por decibéis.

As autoridades não viam as coisas dessa forma. A Lei da Justiça Penal de 1994, com a sua famosa disposição que proibia ajuntamentos com «batidas repetitivas», foi uma reação direta ao que se tinha passado naqueles anos — uma alegria incontrolável. O Estado via desordem; os ravers viam comunhão. Os Spiral Tribe foram dos primeiros a sentir a pressão. Batidas policiais, detenções, exílio. Mas mesmo com as manchetes a tornarem-se hostis, o som continuou a migrar — para discotecas, armazéns, estações piratas e, por fim, para o ADN de tudo, desde o drum & bass ao techno e ao house.

Olhando para trás, o que me surpreende não é apenas a dimensão, mas a ternura. Por baixo do barulho, havia carinho — pela mistura musical, pelo público, uns pelos outros. Todos cuidavam uns dos outros. Era caótico, sim, mas tinha a sua própria ética. Aprendemos que o som podia curar o que a política tinha destruído. Naquelas poucas horas entre o pôr-do-sol e o nascer do sol, a Grã-Bretanha reencontrou a unidade — não através do consenso, mas através do ritmo.

A genialidade daqueles anos residia no facto de a música não ter a ver com a fama. Tinha a ver com a frequência. Tinha a ver com a criação de espaços onde a igualdade pudesse ser sentida, e não apenas teorizada. As pessoas não precisavam de concordar para se sentirem parte daquilo; bastava-lhes apenas mexerem-se.

E agora, décadas mais tarde, ainda se consegue sentir esse pulsar. O equipamento é mais pequeno, os regulamentos são mais rigorosos, mas o espírito não desapareceu. Sente-se isso nas discotecas de Berlim, nos armazéns de Londres, nos bares de música de Tóquio. Todas as cenas que valorizam a ligação entre as pessoas acima do comércio têm uma dívida silenciosa para com aquele momento — para com os campos, os comboios e, sim, para com os Spiral Tribe e a sua teimosa insistência de que a alegria deve ser gratuita.

O rave foi a última grande rebelião analógica antes de a Internet transformar a comunidade em conteúdo. Era social antes das redes sociais, descentralizado antes da blockchain, comunitário antes de o algoritmo nos atomizar. E é por isso que perdura. Lembra-nos que o som ainda consegue reorganizar o mundo — não gritando, mas sincronizando-se.

Por isso, quando as pessoas me perguntam o que significaram aqueles anos, digo-lhes o seguinte: as raves não tinham a ver com fuga. Tinham a ver com pertença. Tinham a ver com o direito de existirmos juntos, de sentirmos juntos, de acreditarmos que a libertação poderia vir através do baixo.

A festa nunca acabou de verdade. Apenas encontrou novas formas de ouvir.

Perguntas rápidas

Quem eram os Spiral Tribe?
Um coletivo sediado em Londres que levou a cultura rave por campos e fronteiras — em parte arte, em parte anarquia e inteiramente dedicado ao som como liberdade.

Por que é que o período de 1989–1992 foi tão importante?
Porque a música voltou a ser, por um breve momento, uma força política — unindo um país dividido através de um ritmo comum e de uma alegria sem limites.

Onde é que esse espírito vive agora?
Nos subterrâneos das grandes cidades — explore-os através dos City Guides, leia reflexões na secção The Edit ou descubra álbuns que transmitem a vibração da liberdade na sec ção The Listening Shelf.


Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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