O Ritmo que Esquecemos — De volta ao Ska
Rafi Mercer volta a abordar os movimentos do ska e do Two Tone — uma época em que o ritmo era sinónimo de rebeldia.
Por Rafi Mercer
Houve uma altura em que o próprio ritmo era sinónimo de rebelião.
Uma batida de tambor, uma secção de metais, uma síncopa ao ritmo da qual se podia dançar — isso bastava para fazer uma geração mover-se de forma diferente. O ska e o Two Tone nunca foram apenas géneros musicais. Eram sistemas meteorológicos. Surgiram ao som da alegria e da resistência da classe trabalhadora, misturando o ritmo jamaicano com a determinação inglesa. Deram aos jovens algo raro: ritmo com significado.
Mas agora, quando volto a ouvir — The Specials, The Selecter, The Beat, Madness —, não ouço apenas os metais ou as linhas de baixo. Ouço clareza. Ouço uma espécie de coragem social que, silenciosamente, perdemos. Aqueles discos não eram apenas divertidos; eram funcionais. Diziam: olha à tua volta, algo está errado, mas não estás indefeso. O movimento deu aos jovens uma forma de se envolverem na política através da música — não através de um manifesto, mas através da ação.
O ska, no seu melhor, era um som feito de contradições. Alegria e tensão, luz e fúria, preto e branco, jamaicano e britânico, otimismo e ansiedade. A Two Tone transformou essa contradição em cultura. Jovens de Coventry, vestidos com fatos elegantes, a tocar ritmos caribenhos. Energia punk com a disciplina do soul. Era uma época em que a unidade era urgente, não nostálgica.
E, no entanto, a certa altura, deixámos de a ouvir.
Conta-se que o ska foi desaparecendo — abafado pelos sintetizadores, pela moda e pelo cansaço. Mas isso é apenas parcialmente verdade. A música não morreu; foi ocontexto que morreu.
Ficámos mais ocupados, mais apressados, mais fragmentados. O protesto mudou-se para o mundo online, o ritmo tornou-se algorítmico, a multidão transformou-se em métricas. O tipo de comunidade que o ska exigia — corpos reais num ritmo partilhado — tornou-se raro. A audição tornou-se passiva, solitária, digital.
Mas, ultimamente, comecei a sentir novamente essa corrente subjacente. É subtil, mas está lá — aquela ânsia por música que signifique algo para além de si mesma. Estamos a viver noutra era de divisão, de pressão, de desconexão disfarçada de abundância. E é exatamente esse o tipo de solo onde o ska criou raízes pela primeira vez. Dá para sentir: o ritmo do mundo tornou-se insuportável e as pessoas estão a começar a ansiar por ritmo novamente. Não por BPMs — por ritmo.
Talvez nunca tenha desaparecido. Talvez estivesse apenas à espera que quiséssemos ouvi-lo novamente.
O ska baseava-se na atenção. Era preciso sentir o contra-tempo para acompanhar o ritmo. Era aí que residia a sua genialidade — ensinava-nos a ouvir de forma diferente, a antecipar em vez de reagir. O Two Tone pegou nessa estrutura e transformou-a numa metáfora: para existir em sintonia com outra pessoa, era preciso ouvir a diferença dela. Os jovens brancos aprenderam o backbeat negro; os jovens negros, por sua vez, ouviram a urgência do punk. O palco tornou-se um modelo de coexistência.
E isso, penso eu, é o que mais perdemos — não o estilo, mas a capacidade de ouvir. Hoje em dia, com demasiada frequência, desistimos antes de ouvirmos o que realmente está lá. Passamos adiante, saltamos, rendemo-nos. Confundimos acesso com consciência. Mas a música — a verdadeira música — nunca teve a ver com acesso. Tinha a ver com sintonia. O ska lembrou-nos que o ritmo não é apenas entretenimento. É empatia em movimento.
Na outra noite, estava a ouvir «Ghost Town» — aquela obra-prima assombrosa e meio vazia dos The Specials — e ocorreu-me como ainda parece tão atual. A decadência da cidade, o desemprego, a solidão, a tensão no ar. É o mesmo pulso sob um horizonte diferente. Aquela canção não é história; é um diagnóstico. E o que a tornou poderosa não foi a raiva, mas o tom. Não gritava;assombrava. Sabia que o próprio ato de ouvir era uma forma de protesto.
Foi isso que o Two Tone nos ensinou — que o som podia transmitir mensagens políticas sem slogans. Dava para dançar e manifestar discordância ao mesmo tempo. Dava para transformar a alegria numa forma de sobrevivência. Os jovens daquela época tinham tempo para isso. Viviam entre bandas, concertos e noites que se prolongavam até ao amanhecer. Aprenderam a debater através do ritmo. Hoje, debatemos nas secções de comentários. O ritmo é mais acelerado, o sinal mais fraco.
Mas, mesmo assim, a música permanece — paciente, à espera. E, de vez em quando, sente-se que ela se agita. Vê-se um set de ska a surgir numa noite de vinil em Berlim, uma secção de metais a encontrar o seu lugar num bar de música em Londres, um jovem produtor a fazer um sample de The Beat num quarto algures em Seul. Percebe-se que nunca foi nostalgia. Foi continuidade. O ritmo nunca parou; nós é que deixámos de o acompanhar.
Às vezes penso que essa é a verdade silenciosa por trás de tudo o que escrevo.
Ninguém está a ouvir, mas todos deviam estar.
Porque cada época deixa para trás o seu código no som e, se aprendermos a ouvir, aprendemos a viver através dele. O ska era o som da coexistência sob pressão. O seu ritmo transportava tanto a rebelião como a reconciliação. Era a prova de que a música pode fazer uma sociedade balançar antes de esta aprender a manter-se de pé.
A razão pela qual isto é importante agora não tem a ver com moda ou com um renascimento. É importante porque nos esquecemos de como partilhar o ritmo. Criámos auscultadores em vez de pistas de dança. Fazemos uma seleção, mas não participamos. Mas o ska sempre foi coletivo. Dizia: fica ao lado de alguém que não se pareça contigo e move-te ao mesmo ritmo. Isso não é apenas musical — é moral.
Talvez seja isso que tenho vindo a tentar dizer desde o início — que ouvir é mais do que um simples ato de audição. É um ato de cidadania. Quando se ouve de verdade, faz-se parte de algo maior do que nós próprios. Não se ouve apenas o som, mas também o contexto. Reconhece-se o que está partido e o que pode ser reparado.
Talvez, então, o ska nunca tenha sido uma época a lamentar, mas sim uma frequência a redescobrir. Uma lembrança de quem éramos quando ainda acreditávamos que a música podia ter significado, quando os jovens tinham tempo para se envolverem na política através do ritmo, quando uma batida de bateria era simultaneamente dança e declaração.
O problema nunca foi o ritmo. Foi o silêncio.
E se ouvirmos com atenção, por baixo de todo este barulho, ainda conseguimos ouvi-lo — aquele ritmo alegre e fora do compasso, aquele convite para voltarmos a mexer-nos, juntos. Não é nostalgia. É uma oportunidade. Está mesmo à nossa frente, à espera que alguém carregue no «play» e o faça com convicção.
Perguntas rápidas
Será que o ska era mesmo político?
Sim — mas de forma discreta. Transformou o ritmo em resistência e a harmonia em humanismo. A política estava no ritmo.
Porque é que volta a ter impacto agora?
Porque estamos divididos, distraídos e desesperados por contacto — exatamente as mesmas condições que o criaram.
Como seria um renascimento do ska moderno?
Menos moda, mais emoção. Diversa, rítmica, reflexiva — música que nos faz aproximar-nos uns dos outros novamente.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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