A Ilha Virada para Oeste

A Ilha Virada para Oeste

Ibiza construiu toda a sua reputação em torno da vida noturna. O seu ritual mais autêntico tem lugar ao anoitecer.

Por Rafi Mercer

Todos chegam a Ibiza pelo lado errado. Os ferries e as rotas aéreas levam-nos até ao lado leste, à cidade, ao porto onde os superiates repousam como salas fechadas. A mitologia da ilha também aponta para leste — as discotecas, as filas, a noite que, como é sabido, nunca acaba. Mas o ritual que importa acontece na outra costa, em San Antonio, numa faixa de rocha virada para oeste, onde um bar do tamanho de uma modesta sala de estar decidiu, em 1980, que o acontecimento mais importante do dia era o pôr-do-sol.

O Café del Mar não foi construído para dançar. Foi construído para observar. A esplanada dá para o mar, o mar dá para o horizonte e, todas as noites, o horizonte encena o mesmo espetáculo lento que encena desde sempre. O que o bar acrescentou foi uma banda sonora — e, mais importante ainda, um homem que compreendia para que servia essa banda sonora.

José Padilla tocava discos ali durante o final dos anos 80 e 90, e a sua verdadeira inovação não foi um género. Foi uma curva de ritmo. À medida que a luz se esvaía, a música acompanhava-a. Começava no final da tarde com algo descontraído e acolhedor — uma guitarra, uma voz, algo com movimento — e, quando o sol tocava o mar, o ambiente tinha abrandado até quase nada. Acordes longos. Espaço entre as coisas. Música que se mantinha imóvel de propósito. Quando o último raio de sol desaparecia, o terraço aplaudia. Não ao DJ. Ao sol. Todas as noites, sem exceção.

Reflexione sobre isto por um momento, porque é toda a essência da cultura da escuta resumida numa única imagem. Uma sala cheia de estranhos, reunidos diariamente, com a atenção voltada para a mesma coisa, a música ao serviço do momento, em vez de competir com ele. O jazz kissa fez isso em Tóquio com o silêncio e Coltrane. Ibiza fez-no com um horizonte e um céu das Baleares a escurecer. Mobiliário diferente, mesmo instinto: a restrição cria significado. O pôr-do-sol acontece uma vez. Ou estás presente para o ver, ou não estás.

As seleções de Padilla deram origem às compilações «Café del Mar» a partir de 1994, e nasceu o termo «chill-out», que foi logo abusivamente utilizado durante duas décadas em átrios de hotéis e por agentes imobiliários. Ignorem esse termo. Os primeiros volumes são mais invulgares do que a sua reputação sugere — flamenco ao lado de techno ambiente ao lado de música de câmara inglesa; discos como o que mais tarde viria a ser «Promises», peças únicas que se acumulam em vez de se revelarem de imediato. É possível traçar essa linhagem diretamente através dos 50 álbuns que recomendamos para uma audição atenta; metade deles segue o princípio de Padilla, quer os seus criadores conhecessem o seu nome ou não.

O que Ibiza compreendeu, e o que as cidades do continente estão agora a redescobrir, é que o ritmo é uma escolha. As salas de audição de Barcelona funcionam com a descontração mediterrânica; as de Lisboa, com a luz do Atlântico e a melancolia prolongada do fado; as de Madrid, com horários tardios e ouvidos exigentes. Mas San Antonio chegou lá primeiro, sem qualquer pretensão audiófila, sem um único altifalante de corneta à vista. O sistema era comum. A ideia, porém, não era: combinar a música com a luz, e a luz ensinará as pessoas a ouvir.

O bar continua de pé. A zona à sua volta tornou-se mais vulgar — cocktails servidos em baldes, bastões de selfie, o pôr-do-sol como conteúdo em vez de evento. E, no entanto, o sol não se incomoda. Continua a mergulhar no mar à hora marcada, e continua a haver um momento, mesmo antes de se pôr, em que até a mesa mais barulhenta fica em silêncio sem saber porquê.

Os aplausos nunca foram pela música. A música apenas garantia que todos continuassem lá quando era preciso.

Foi o Café del Mar que inventou a música chill-out?

Pode dizer-se que foi isso que lhe deu o nome, mais ou menos. A música ambiente e de ritmo lento já existia muito antes de 1980 — as obras ambient de Eno, a «música de mobília» de Satie, décadas de dub. O que o Café del Mar e José Padilla criaram foi o contexto: um ritual diário em que a música lenta tinha uma função a desempenhar. A série de compilações de 1994 levou essa ideia a todo o mundo.

Vale a pena visitar Ibiza mais pela cultura musical do que pelas discotecas?

Sim, se te dirigires para oeste. A «Sunset Strip» de San Antonio continua a ser o ponto de partida, e a metade norte da ilha, mais tranquila — Benirràs, Santa Gertrudis — apresenta um ritmo musical mais calmo do que as ruas repletas de discotecas. Vai na época intermédia, em maio ou outubro, quando as esplanadas ficam menos cheias e o ritual parece mais próximo do que era antigamente.

O que é um «listening bar»?

Um espaço onde o som gravado é o centro da experiência, em vez de servir de pano de fundo — sistemas de alta fidelidade, coleções de vinil cuidadosamente selecionadas e salas concebidas para captar a atenção. O «Tracks & Tales» mapeia-os em 171 países, desde os «jazz kissa» de Tóquio até às novas salas da Europa e das Américas.


Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais artigos da rubrica «Tracks & Tales», subscreva.

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