O que podemos recuperar se abrandarmos o ritmo? — Daft Punk, The KLF, Massive Attack e a arte de dar um passo atrás
Quando os artistas deixam de acelerar e começam a ouvir
Por Rafi Mercer
Chega um momento — não só na música, mas na vida — em que o avançar deixa de parecer um progresso. Quando a velocidade começa a esvaziar o significado. Quando fazer mais já não traz nada de novo. Esse momento é subtil. Raramente se anuncia. Mas os artistas mais interessantes são sempre os primeiros a percebê-lo.
A questão que me vem constantemente à cabeça é simples, quase desarmante: o que podemos recuperar se abrandarmos o ritmo? Não se trata de um exercício filosófico. É um exercício prático. E está no cerne de algumas das viragens musicais mais importantes dos últimos cinquenta anos.
«Random Access Memories» é a forma como os Daft Punk fazem essa pergunta em voz alta.
Em 2013, já tinham vencido. Tinham moldado a música eletrónica, a cultura popular, a moda e a própria noção de anonimato. Podiam ter continuado indefinidamente — espetáculos mais barulhentos, «drops» mais intensos, software mais avançado, mais espetáculo. Em vez disso, fizeram algo profundamente fora de moda: deixaram de perseguir o futuro e voltaram-se para a memória.
Desmantelaram as ferramentas que os tinham tornado ícones e reconstruíram a sua música em torno das pessoas nas salas. Gravadores de fita. Bandas ao vivo. Tempo. Deixaram que a emoção voltasse. Random Access Memories não é um álbum eletrónico disfarçado de outra coisa — é um álbum para ouvir disfarçado de disco pop. Um disco humano feito por máquinas que optaram pela contenção.
Este comportamento não era novo. Era uma tradição.
Os KLF chegaram a um ponto semelhante duas décadas antes. No auge do seu poder — domínio das tabelas, saturação cultural, liberdade total —, decidiram afastar-se. Não discretamente, mas de forma deliberada. Queimaram pontes, queimaram dinheiro, queimaram o mito da ascensão sem fim. Compreenderam algo que a maioria nunca compreende: o sucesso nem sempre significa continuação. Por vezes, significa conclusão.
A pergunta deles não era: «Como é que podemos crescer mais?»
Era: «Porque é que estamos a fazer isto, afinal?»
Os Massive Attack também o sentiram. O trip-hop não era apenas um som; era uma reação. Um abrandamento da cultura rave. Uma recusa em correr a toda a velocidade. Eles alongaram as batidas até estas ficarem repletas de emoção. Deixaram o silêncio falar. Fundiram o dub, o soul, a política e a paranóia numa mistura densa, deliberada e introspectiva. Enquanto o mundo acelerava, eles optaram pela profundidade.
Estes artistas não sucumbiram ao sucesso — superaram-no.
O que os une não é o género, a época ou a tecnologia. É o momento certo. Cada um chegou a um ponto em que as recompensas externas já não compensavam o custo interno. Em que a rapidez ameaçava a profundidade. Em que a repetição ameaçava o significado. E cada um, à sua maneira, optou por fazer uma pausa, dar um passo de lado ou afastar-se completamente.
Abrandar, neste contexto, não é recuar. É reajustar.
Quando abrandas, recuperas a atenção — primeiro a tua, depois a do teu público. Recuperas espaço. Silêncio. A capacidade de ouvir o que está realmente a acontecer, em vez do que está na moda. Lembras-te porque é que o som era importante antes de se tornar conteúdo.
É por isso que a cultura da escuta tem tanto impacto hoje em dia. Não por ser retro, mas porque é corretiva. Bares dedicados à escuta, álbuns longos, composições que ocupam um lado inteiro de um disco, espaços concebidos para o som — são todas expressões do mesmo instinto. Uma rebelião silenciosa contra o consumo sem atrito.
O vinil exige tempo. As salas exigem presença. A música tocada por pessoas exige empatia. Nada disto se expande rapidamente — e é precisamente essa a questão.
Quando os Daft Punk se afastaram após Random Access Memories, não estavam a desaparecer. Estavam a concluir o seu percurso. Os robôs não se esgotaram; tiraram as máscaras e deixaram a sala intacta. Mostraram-nos que o ato mais avançado não é a aceleração — é a contenção.
Os KLF ensinaram-nos que a saída pode ser uma obra de arte.
Os Massive Attack ensinaram-nosque abrandar o ritmo pode aprofundar a mensagem.
Os Daft Punk ensinaram-nos que a memória pode ser mais radical do que o futurismo.
Então, o que é que podemos recuperar se abrandarmos o ritmo?
Recuperamos o significado. Recuperamos o ofício. Recuperamos a sensação de estar em contacto com o som, em vez de simplesmente passar por ele. Recuperamos a capacidade de sentir algo sem precisarmos imediatamente de o partilhar, otimizá-lo ou seguir em frente.
E, talvez o mais importante, redescobrimos-nos — não como consumidores ou público, mas como ouvintes.
É isso que o «Tracks & Tales» realmente representa. Não se trata de documentar locais ou álbuns apenas por si mesmos, mas sim de seguir este fio condutor mais discreto que atravessa a música, a cultura e as cidades. Os momentos em que alguém decidiu parar, ouvir e mudar de direção — e, ao fazê-lo, deu ao resto de nós a permissão para fazer o mesmo.
Se abrandares o ritmo o tempo suficiente, o mundo não fica em silêncio.
Finalmente começa a falar.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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