O que é a escuta ativa

O que é a escuta ativa

Por Rafi Mercer

Para perguntar o que é a escuta ativa, é preciso começar pelo seu oposto. Na maioria das vezes, ouvimos passivamente. O som chega, ouvimo-lo de relance, deixamo-lo passar por nós enquanto a nossa atenção se dispersa noutro lugar. A música toca enquanto falamos, cozinhamos ou percorremos o ecrã. As vozes passam por nós em reuniões e conversas, com as nossas mentes a divagar, à espera de pausas em vez de significado. A escuta passiva é aquilo para que o mundo moderno nos treinou: eficiente, distraída, constante.

A escuta ativa é diferente. É o ato de dedicar toda a tua atenção ao som, não como pano de fundo, mas como algo presente. É optar por ouvir com cuidado. E quando a experimentas pela primeira vez — seja num bar de audição, numa sala de concertos ou numa sala de estar com as luzes esbatidas e o disco a girar — percebes como é rara e como é transformadora.

Para mim, a essência da escuta ativa reside no silêncio. Não o silêncio como ausência de som, mas como o enquadramento que permite que a música surja. Num bar como o JBS Jazz Bar, em Shibuya, o silêncio é quase palpável. O ambiente suaviza-se, as conversas acalmam-se, até o tilintar de um copo parece abafado. Quando a agulha desce, o silêncio ganha forma: o espaço entre as notas ganha vida, a respiração do intérprete torna-se audível, a atmosfera da gravação revela-se. A escuta ativa é o que acontece quando se respeita esse silêncio o suficiente para o ouvir.

É também uma experiência física. Ouvir ativamente é sentir o som no corpo, não apenas no ouvido. Uma linha de baixo ressoa no peito, um prato cintila no ar, um violino atravessa o espaço e perdura na pele. A fidelidade é importante aqui — a qualidade do sistema, a disposição das colunas, a afinação da sala. Mas a fidelidade, por si só, não basta. Sem atenção, até o melhor sistema se transforma em ruído. Com atenção, até um sistema modesto pode ter impacto.

A escuta ativa requer presença. Ouvir um álbum do início ao fim é entregar-se ao tempo. Quarenta minutos, talvez mais, num único arco. Sem saltar faixas, sem reprodução aleatória, sem impaciência. Basta confiar no desenrolar do disco. É surpreendente como isso parece invulgar nos dias de hoje. Raramente dedicamos a algo — um livro, um filme, uma conversa — uma atenção tão ininterrupta. No entanto, quando o fazemos, a recompensa é a profundidade. Ouvimos não só a música, mas também a intenção por trás dela: a sequência das faixas, a arquitetura das dinâmicas, a narrativa que o artista construiu. O álbum deixa de ser uma coleção de canções para se tornar uma viagem.

Os «kissaten» japoneses compreenderam isto muito antes de a expressão «escuta ativa» se tornar moda. Nos cafés de Shinjuku e Shibuya, o silêncio era obrigatório, os discos eram tocados na íntegra e a fidelidade sonora era valorizada. O espaço tornava-se uma lição de escuta, não através de instruções, mas sim através do ambiente. Sentávamos-nos, ficávamos lá e aprendíamos a ouvir. Os bares de audição de hoje herdam essa ética. São salas de aula sem professores, santuários sem sermões. Convidam-no a praticar a escuta ativa simplesmente criando as condições para tal.

Mas a escuta ativa vai além da música. Depois de a experimentar num bar de escuta, começamos a repará-la noutros contextos. Numa conversa, quando dedicamos toda a nossa atenção a alguém sem planear a nossa resposta. Na cidade, quando ouvimos o ritmo dos passos, o contraponto das vozes, a arquitetura do ruído. Na natureza, quando fazemos uma pausa suficientemente longa para ouvir o vento nas árvores, as mudanças subtis do canto dos pássaros. A escuta ativa não é apenas um ato de arte, mas de vida.

Por que é que isso importa? Porque é através da escuta que nos ligamos aos outros. A escuta passiva deixa-nos entorpecidos, distantes, sem pontos de referência. A escuta ativa atrai-nos, aprofunda as nossas relações e restaura a nossa atenção. Na música, revela nuances. Na vida, revela significado. E num mundo marcado pela distração, a capacidade de ouvir ativamente é uma forma discreta de resistência.

Quando penso em escuta ativa, lembro-me das noites em que a música me envolvia por completo. Bill Evans no Village Vanguard, a atmosfera do clube audível no silêncio entre os acordes. Donny Hathaway ao vivo, a respiração da multidão tão parte do disco quanto as notas. Ou simplesmente um disco em casa, um whisky servido, as luzes esbatidas, a sala sintonizada em mais nada. Nesses momentos, ouvir não era consumo, mas devoção. Não estava a ouvir o som de forma superficial, estava a vivê-lo.

Então, o que é a escuta ativa? É a escolha de prestar atenção ao som, de o tratar como presença e não como ruído de fundo. É o silêncio assumido como arquitetura, a fidelidade honrada como devoção, a presença oferecida como um presente. É a ética que define os bares de escuta em todo o mundo, a prática que dá sentido à música, a disciplina que devolve a profundidade a um mundo superficial.

E, uma vez que o sabes, já não há volta a dar.

Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais artigos da secção «Tracks & Tales»,subscreva ou clique aqui para ler mais.

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