Quando Nova Iorque Aprendeu a Mover-se Novamente — Êxtase, Migração e o Corpo na década de 1970
Jazz numa cidade que deixou de ficar parada
Por Rafi Mercer
A Nova Iorque dos anos 70 não exigia que chegasses perfeito. Exigia apenas que chegasses disposto.
A cidade estava a desmoronar-se — financeiramente, socialmente, psicologicamente. A meio da década, estava à beira da falência, com as suas infraestruturas a deteriorarem-se e as suas ruas repletas, em igual medida, de atritos e de promessas. Os edifícios estavam vazios. As rendas eram baixas. O futuro era incerto. E, no meio dessa incerteza, surgiram artistas de todo o lado, trazendo consigo fragmentos de outras vidas, de outros sistemas, de outros sons.
Entre eles estava Michał Urbaniak, que chegava da Europa a uma cidade que já tinha deixado de fingir que o jazz era algo recatado.

Para músicos como Urbaniak, Nova Iorque não era uma aspiração — era um teste. Não se ia para lá para ser reconhecido. Ia-se para lá para descobrir se o seu som conseguiria sobreviver ao contacto com a rua.
No início dos anos 70, o jazz em Nova Iorque já se tinha fragmentado. As certezas «cool» do pós-bop estavam a desvanecer-se. Miles Davis tinha abalado as velhas regras com instrumentos elétricos, ritmos circulares e a recusa em dar explicações. A sua música deixou de encontrar resoluções; começou a repetir-se. Não por falta de ideias, mas porque a repetição refletia a vida real — o trânsito, o caminhar, a dança, a respiração.
À sua volta, a cidade reorganizava-se a nível sonoro. O funk não era uma influência; era a infraestrutura. A música disco surgiu em espaços marginalizados onde os corpos importavam mais do que a linhagem. O punk estava a reduzir a música ao seu âmago e à sua intenção. Os músicos de jazz viram-se perante uma decisão silenciosa: refugiar-se na teoria ou regressar ao tempo físico.
Foi o Urbaniak que escolheu o corpo.
Essa decisão é importante ao ouvir «Ecstasy». Lançado em 1978, o álbum não se apresenta como um manifesto. Não soa como um artista europeu a provar que pertence àquele mundo. Em vez disso, transmite uma sensação de observação — como se o seu criador tivesse passado tempo a observar como os nova-iorquinos realmente viviam os seus dias. O ritmo do baixo. A paciência do groove. A forma como nada se apressa em direção a um clímax. Esta não é música em busca da transcendência. É música criada para habitar uma cidade em movimento.
O que hoje em dia é fácil esquecer é o quão radical isso foi. O jazz há muito que era visto como uma forma de arte intelectual — algo para ser descodificado, analisado e respeitado à distância. Mas a Nova Iorque dos anos 70 não premiava a distância. Premiava a adaptabilidade. A sobrevivência exigia ritmo. Se não conseguisses acompanhar o ritmo da cidade, a cidade passava por ti.
Urbaniak chegou trazendo consigo um sentido europeu de melodia e estrutura — um contexto em que o jazz tinha funcionado como uma resistência silenciosa, em vez de um espetáculo público. Na Polónia, o próprio ato de ouvir era um ato de atenção. Em Nova Iorque, a atenção tinha de ser móvel. Ouvia-se enquanto se caminhava, enquanto se trabalhava, enquanto se lidava com o ruído e as interrupções. O «Ecstasy» absorve essa realidade sem a dramatizar.
O título do álbum é revelador. Não se trata de êxtase como excesso ou fuga. É o êxtase como alinhamento físico — o momento em que o movimento e a intenção se sincronizam por breves instantes. As faixas repetem-se em loop em vez de se intensificarem. As vozes integram-se na mistura, em vez de se destacarem. O violino elétrico não domina; ele dialoga. Urbaniak toca como alguém consciente de que o groove não precisa de adornos para ser convincente.
Há histórias dessa época que contam que os músicos ensaiavam o dia inteiro e, à noite, em vez de irem para o palco, passavam o tempo em discotecas e bares — a ver os bailarinos, a observar como as pessoas reagiam ao ritmo de forma inconsciente. O groove tornou-se uma forma de investigação. O «Ecstasy» parece inspirar-se nesse tipo de observação. Não incita o ouvinte a dançar. Parte do princípio de que o movimento já está a acontecer.
Foi isto que Nova Iorque ensinou a tantos artistas durante aquela década: que a música não estava separada da vida. Era uma ferramenta para se manterem de pé no meio da mudança. Numa cidade onde os sistemas estavam a falhar, o ritmo tornou-se um estabilizador. A repetição tornou-se um conforto. O corpo tornou-se a autoridade máxima.
Ao ouvi-lo agora, quase meio século depois, «Ecstasy» transmite uma estranha sensação de familiaridade. Estamos novamente num momento em que as instituições parecem frágeis, em que os géneros se confundem e em que a certeza é escassa. E, mais uma vez, a música que perdura não é a mais alta nem a mais inteligente, mas sim aquela que compreende como as pessoas vivem realmente o seu dia-a-dia.
Urbaniak não tentou captar o caos de Nova Iorque. Captou a sua adaptação. As pequenas reajustações diárias — postura, ritmo, respiração — que permitem que a vida continue em constante mudança. «Ecstasy» não é um álbum sobre o colapso da cidade ou a sua mitologia. É sobre o otimismo silencioso de se manter em movimento.
É por isso que ainda funciona. Não como nostalgia, mas como lição. Um lembrete de que ouvir nem sempre nos exige que fiquemos quietos. Às vezes, exige que nos movamos — com delicadeza, com atenção — e que confiemos de que o ritmo nos levará para a frente.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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