Uma reflexão sobre a moda

Uma reflexão sobre a moda

Por Rafi Mercer

Tudo começou, como acontece com tantos dos meus pensamentos, com um disco. Uma edição japonesa de uma reedição da Blue Note, com capa grossa e a faixa «obi» ainda impecável. Lembro-me da primeira vez que segurei um destes na loja — parecia diferente, de alguma forma mais cuidada. Também se notava ao ouvi-lo: superfícies mais suaves, tons mais ricos, cada detalhe cuidado ao pormenor.

Foi essa mesma filosofia que nos levou a criar o «listening bar». Uma sala onde nada é fruto do acaso: o peso das cortinas, a incidência da luz, a disposição das colunas. Tudo foi reduzido ao essencial, e esse essencial foi ajustado com o máximo cuidado. A simplicidade não como ausência, mas como foco.

Ultimamente, tenho-me perguntado: como seria se essa filosofia passasse da música para a roupa? Não a «Tracks & Tales» enquanto marca, mas simplesmente Rafi Mercer — uma linha de peças tão discreta como um kissa, que transmita a mesma reverência pelos detalhes.

Imagino-o com discrição. Sem logótipos chamativos, sem efeitos sensacionalistas. Apenas roupa bem feita que sussurra, se souberes ouvir. T-shirts de algodão pesado, daquelas que amolecem mas não perdem a forma. Ganga que se desgasta tal como a capa de um disco, com as bordas desfiadas pelo uso. Um casaco com um pormenor que só tu conheces — um ponto, um forro, um bilhete escondido onde mais ninguém o vê.

Os japoneses compreenderiam este instinto. Há décadas que o fazem com o denim — as fábricas de Okayama tecem índigo em tecidos que envelhecem como o carvalho, sendo cada par de calças de ganga um registo de quem as usa. O mesmo se passa com os seus ténis: minimalistas, geométricos, afinados como instrumentos. E aqui no Reino Unido, vê-se um espírito semelhante em locais como a Hiut Denim, no País de Gales — séries limitadas, alta qualidade, a convicção de que produzir menos, mas melhor, é que constitui a verdadeira afirmação.

Se seguir esta linha de pensamento, as semelhanças são óbvias. O bar de audição e o guarda-roupa têm ambos a ver com a definição do espaço. Um é sonoro, o outro é físico. Ambos assentam na contenção e ambos são definidos pelo que se opta por não incluir. Um kissa não se enche de luzes de néon nem de conversas; proporciona-te silêncio para que a música possa respirar. A roupa deve fazer o mesmo: eliminar o excesso, para que a pessoa que a veste possa respirar.

Não quero romantizar demais. São apenas os meus pensamentos em voz alta, esboços de ideias nas margens de um caderno. Mas a tentação é forte. Porque aprendi que simples não significa fácil. Na verdade, é a coisa mais difícil: criar algo que se integra na vida quotidiana, mas que deixa um rasto sempre que o usas. Cortar um casaco de forma a que se adapte na perfeição aos teus movimentos. Escolher um tecido que mantenha a sua forma mesmo passados cinco anos. Colocar um ponto onde só tu alguma vez o irás notar.

É esse o encanto de lhe chamar simplesmente Rafi Mercer. Não por vaidade, mas por responsabilidade. Se o teu nome está no rótulo, tens de fazer com que valha a pena. Cada peça deve merecer a mesma atenção que um disco que eu tocaria num bar: escolhida com cuidado, ordenada deliberadamente, destinada a perdurar.

Talvez não passe de um devaneio. Mas não consigo livrar-me da sensação de que o bar de audição e a ideia de uma linha de roupa partilham a mesma história de origem: uma rejeição do ruído, uma dedicação ao artesanato, a convicção de que o ambiente é importante. Quer se trate de um disco num café à meia-noite ou de uma camisa que escolhe de manhã, a filosofia é a mesma.

A simplicidade, quando bem feita, é uma forma de música por si só.


Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais artigos da rubrica «Tracks & Tales», subscreva aqui ou clique aqui para ler mais.

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