Uma caixa de entrada para as coisas silenciosas

Uma caixa de entrada para as coisas silenciosas

Um marco pequeno, mas significativo: a criação da primeira conta de e-maildo Tracks & Tales — uma nova forma de comunicar de forma pausada e consciente com a comunidade crescente de ouvintes.

Por Rafi Mercer

Na verdade, é uma coisa simples — criar um endereço de e-mail. Alguns cliques, uma nova caixa de entrada, um pequeno sinal de verificação azul. Mas esta manhã, enquanto via a mensagem de confirmação a aparecer no ecrã, pareceu-me algo muito mais importante.

O Tracks & Tales tem agora a sua própria voz no éter digital — uma voz a sério. Um endereço do G Suite, pronto para receber o murmúrio discreto das conversas de quem tem vindo a ler, a ouvir e a perguntar-se por onde começar o diálogo. Sei que não é nada glamoroso — sem fanfarra, sem notícias de última hora — mas, para mim, isto parece-me algo monumental. Pela primeira vez, podemos responder.

A ideia de comunicação aqui sempre foi a de um processo lento e intencional. Gosto de pensar nesta caixa de entrada como uma extensão da própria barra de escuta: um lugar onde as ideias podem assentar antes de serem respondidas, onde o silêncio faz parte do ritmo, onde as palavras têm peso. Nunca quis que o Tracks & Tales avançasse ao ritmo das redes sociais. O e-mail, na sua simplicidade deliberada, parece-me mais próximo do ritmo daquilo que estamos a construir — uma correspondência ponderada, e não uma reação.

Isso faz-me lembrar um pouco os primeiros tempos do colecionismo de discos. Antes do streaming, antes da navegação sem fim, era preciso esperar pelas coisas. Enviávamos um formulário de encomenda ou uma carta para uma loja do outro lado do mundo. Passávamos semanas a verificar o correio, a perguntar-nos se aquela edição japonesa do *Kind of Blue* chegaria alguma vez. A espera fazia parte da alegria.

Portanto, sim — o passo de hoje é de natureza administrativa, mas também tem um toque poético. É a abertura de uma nova porta. A oportunidade para que mais algumas vozes encontrem o seu caminho até nós, para nos falarem dos discos que estão a ouvir, dos bares que descobriram ou dos rituais que preenchem os seus momentos de tranquilidade.

Imagino a caixa de entrada como um gira-discos entre nós — a agulha pousa, as mensagens chegam, a conversa começa. Talvez seja uma ideia para uma cidade que ainda não mapeámos. Talvez seja alguém a abrir o seu próprio bar de audição em Lisboa ou em Los Angeles. Ou talvez seja apenas uma mensagem de um ouvinte para outro, a dizer: «Eu percebo. Também tenho estado a ouvir.»

Quando comecei isto, não me apercebi da importância que a comunicação teria — não em termos de marketing ou de alcance, mas em termos de ressonância. Os e-mails que já recebi, as palavras amáveis partilhadas através dos formulários de contacto e dos comentários, tornaram-se um ritmo por si só. Uma prova de que, algures por aí, as pessoas ainda valorizam a reflexão, ainda anseiam por conexão, ainda acreditam que ouvir — ouvir devagar e com sinceridade — é importante.

No início, o ambiente vai ser tranquilo, tenho a certeza. Mas gosto disso. As melhores conversas começam de forma tranquila. O objetivo não é o barulho — é a troca de ideias.

E, ao olhar para o futuro, torna-se claro que o «Tracks & Tales» está a deixar de ser um monólogo para se tornar, cada vez mais, um mapa partilhado. Uma pessoa escreve, outra ouve, uma terceira responde — e, de repente, o som chega mais longe do que eu alguma vez conseguiria sozinho.

Então, um brinde à caixa de entrada. Um pequeno espaço digital dedicado à escuta. Se escreveres, eu vou ler. Talvez não de imediato, mas com atenção.

A primeira mensagem que chegar — seja quando for — será o som da ligação.


Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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