As cidades são o principal instrumento

As cidades são o principal instrumento

Um ensaio reflexivo sobre as cidades como instrumentos — como o som, o ritmo e a atmosfera moldam a experiência auditiva muito antes de a música começar, e por que razão as cidades são o que mais importa.

Por Rafi Mercer

Tenho pensado muito nas cidades ultimamente — não como destinos, mas como instrumentos.

Temos tendência a falar de música como se esta flutuasse independentemente do local. Os álbuns existem nas capas. As canções são reproduzidas nos auscultadores. Os locais de espetáculos são listados, avaliados e marcados como favoritos. Mas quanto mais tempo trabalho no «Tracks & Tales», mais claro se torna algo: antes mesmo de ouvirmos um disco, antes de entrarmos numa sala, já estamos a ser sintonizados pela própria cidade.

Cada cidade tem um som. Não é uma lista de reprodução — é um temperamento.

Sente-se isso assim que se chega. A forma como os passos ressoam no pavimento. A forma como as vozes pairam no ar. Se o trânsito se faz sentir ou se dissipa no fundo. Se o silêncio parece estranho ou bem-vindo. Não se trata de níveis de ruído. Trata-se de ritmo. Densidade. Permissão.

Algumas cidades incentivam-nos a apressar-nos. Outras pedem-nos para fazer uma pausa. Algumas cidades premiam o volume; outras, a atenção. Essa diferença determina a forma como ouvimos, muito antes de a música entrar em cena.

É por isso que as páginas dedicadas às cidades começaram a parecer-me mais importantes do que eu esperava. Não são simples diretórios. São pontos de orientação. Respondem a uma pergunta que a maioria das pessoas nunca faz conscientemente, mas que sente instintivamente: como é que se sente estar aqui?

Quando compreenderes isso, tudo o resto se encaixa.

Os locais deixam de ser recomendações isoladas e passam a parecer provas — evidências da identidade musical mais profunda de uma cidade. Os álbuns deixam de ser críticas e tornam-se âncoras — algo que se leva para casa para manter a sensação viva. Os ensaios deixam de ser artigos de opinião e transformam-se em rituais — formas de regressar a um lugar sem lá estar.

As cidades, percebi, são o primeiro instrumento que tocamos.

Pensa nisso. Um disco de jazz ouvido em Estocolmo não tem o mesmo impacto que tem em Nápoles. Um disco de soul transmite uma sensação diferente em Manchester do que em Los Angeles. Não porque a música mude, mas porque nós mudamos. A cidade já ajustou o nosso ritmo interior. Já criou o ambiente.

Viajar é um dos poucos momentos da vida moderna em que as pessoas procuram ativamente reorientar-se. Estão abertas. Os seus hábitos ficam menos rígidos. Querem saber não só o que ver, mas também como sesentir num determinado lugar. O som é a forma mais rápida de responder a isso — porque contorna o intelecto e vai diretamente ao sentimento.

Se todos os lugares soassem da mesma forma, todos os lugares pareceriam iguais. O facto de as cidades não serem assim é precisamente o que importa.

O que mais me entusiasma é que este tipo de pensamento não se expande através do sensacionalismo ou do espetáculo. Expande-se através da clareza. Através de uma descrição cuidadosa. Através da resistência à tentação de reduzir os lugares a listas. As cidades não precisam de ser vendidas. Precisam de ser ouvidas.

E talvez seja esse o papel discreto que o «Tracks & Tales» está a assumir: não dizer às pessoas para onde devem ir, mas ajudá-las a perceber quando um lugar lhes faz sentido. Quando o seu ritmo se alinha com o delas. Quando o seu som as convida a ficar mais um pouco.

Quando começamos a ouvir as cidades desta forma, já não conseguimos deixar de as ouvir assim. As viagens mudam. A música muda. Até a nossa casa soa diferente.

Percebes que ouvir não é algo que se ligue simplesmente.
É algo que as cidades te ensinam — se lhes deixares.


Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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Não é uma lista de reprodução.

O número de membros fundadores está limitado a 200 em todo o mundo. O Clube de Audição «Tracks & Tales» destina-se a quem compreende que ouvir não é apenas ruído de fundo, mas sim uma forma de estar presente.

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