A Escuta Profunda, o Hip Hop e a Arte de Compreender

A Escuta Profunda, o Hip Hop e a Arte de Compreender

Por Rafi Mercer

Tenho pensado muito sobre a verdadeira origem da ideia da «escuta profunda ». A maioria das pessoas atribui-lhe origem no Japão — os «kissaten» de jazz dos anos 50 e 60, aqueles santuários cheios de fumo onde os gira-discos eram altares e o silêncio era sinónimo de respeito. Mas, quando se olha mais de perto, começa-se a ver algo familiar numa cultura completamente diferente — o hip hop. Mundos diferentes, o mesmo instinto: compreensão profunda.

O Japão ensinou-nos a ouvir devagar, com atenção. O hip hop ensinou-nos a ouvir com atenção, com curiosidade. Ambos os movimentos surgiram da necessidade de encontrar significado no som, de reinterpretar o que já existia, de construir a verdade a partir de fragmentos. Um disco a girar numa cave de Shinjuku e um DJ a fazer «breaks» no Bronx fazem parte da mesma conversa — ambos atos de reverência disfarçados de rebelião.

Penso naqueles primeiros DJs — Kool Herc, Grandmaster Flash, Afrika Bambaataa — que não se limitavam a ouvir música, mas a ouvi-la em profundidade. À procura de breaks, a dissecar ritmos, a encontrar o batimento cardíaco de um groove enterrado nas profundezas de um disco de James Brown ou de um loop de jazz. Isso é a «escuta profunda» na sua forma mais crua: estudar o som até compreender a sua estrutura, a sua alma. Não é passiva; é forense. Eles eram tanto arquivistas como artistas.

De certa forma, a sessão de escuta e a festa de hip-hop na rua são duas faces da mesma moeda. Uma ensina a concentração silenciosa, a outra ensina o ritmo coletivo. Ambas dizem a mesma coisa — presta atenção. Uma proporciona-te quietude, a outra proporciona-te fluidez. Precisas de ambas para ouvires de verdade.

Quando penso no bar de audição moderno — do tipo que apresentamos no Tracks & Tales —, consigo ver como estes mundos se sobrepõem. O DJ atrás do balcão pode estar a passar uma faixa do Pharoah Sanders ou um instrumental do Dilla. O público fica sentado a apreciar em silêncio, acenando com a cabeça não por hábito, mas por compreensão. O sistema de som não está lá apenas pelo volume; está lá pela profundidade. Os detalhes — o crepitar, a respiração, o eco de uma caixa — tornam-se tema de conversa.

Talvez essa seja a próxima evolução do movimento: reconhecer que a escuta profunda não se resume apenas a discos de jazz, música ambiente ou clássica. Trata-se de tudo o que nos convida à presença. O hip-hop, quando reproduzido no sistema certo e com a intenção certa, pode ser tão meditativo quanto Coltrane. É possível perder-se num loop, no ritmo, na humanidade de uma voz sampleada.

É por isso que acho que o hip hop tem o seu lugar nos bares onde se vai para ouvir música. Não é música de fundo; é arquitetura cultural. É o som da atenção profunda disfarçada de energia. Convida-nos a ouvir as suas camadas — história, arte, colaboração, sobrevivência. Recompensa a paciência, mas acompanha o ritmo da vida.

Por isso, talvez a ligação entre os «kissaten» de Tóquio e as festas de bairro do Bronx não seja apenas uma coincidência — é evolução. Um aperfeiçoou a arte de ouvir para dentro. O outro aperfeiçoou a arte de ouvir para fora. Ambos, à sua maneira, levam à mesma conclusão: a música não é algo que se consome, é algo que se compreende.

E é aí que se situa atualmente a cultura moderna da audição — entre a quietude e o movimento, a tradição e a tecnologia. A reverência silenciosa do Japão encontra-se com a precisão rítmica do hip hop. Juntas, lembram-nos que ouvir — ouvir de verdade — não tem a ver com o género. Tem a ver com a intenção.


Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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