Deixar as coisas acontecerem — Reflexões sobre não lutar contra a vida

Deixar as coisas acontecerem — Reflexões sobre não lutar contra a vida

Por Rafi Mercer

Há uma ideia discreta que me tem acompanhado hoje, daquelas que não surgem com urgência nem exigem uma conclusão. É simplesmente esta: e se a vida não fosse algo que tenhamos de moldar à força, mas sim algo para abraçar, observar e deixar acontecer?

Durante muito tempo, encarei a vida como uma negociação. Se trabalhasse mais, planificasse melhor, me esforçasse de forma mais deliberada, então a próxima versão das coisas acabaria por chegar — mais clara, mais tranquila, mais resolvida. Mas a estranha verdade é que a maior parte do atrito não vinha da própria vida. Vinha da minha resistência à forma como as coisas já eram.

Hoje parece diferente. Não é perfeito. Não está resolvido. Apenas… presente.

Estou a trabalhar. Estou a ouvir. Estou a escrever. Não estou a tentar transformar cada momento numa prova de progresso ou numa evidência de sucesso futuro. E, nesse espaço, algo se suaviza. A pressão diminui. O ruído diminui um pouco.

O «Tracks & Tales», no seu melhor, não é um plano de negócios nem uma curva de crescimento. É um lugar para aprender em público. Para seguir o som até às salas. Para conviver com a música sem lhe pedir que se apresente. Quando deixo de lhe pedir que se justifique, torna-se mais leve — e, curiosamente, mais significativa.

Há um otimismo discreto em optar por ver o copo meio cheio, não como uma estratégia, mas como uma atitude. Não é negação, nem positividade forçada — é apenas a vontade de ver o que já está a funcionar e deixar que isso seja suficiente por hoje.

Começo a pensar que a alegria não se encontra ao corrigir o passado ou ao resolver o futuro. Ela surge quando deixamos de tratar o presente como um inconveniente temporário.

Por agora, isto basta:
Faço o trabalho que tenho em mãos.
Escrevo porque gosto de escrever.
Ouço porque ouvir ainda me parece algo humano.

E deixo a vida ser o que é — nem derrotada, nem conquistada — apenas acolhida com carinho.


Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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