Marcas na zona de silêncio

Marcas na zona de silêncio

A quarta tiragem tem um pequeno ponto amarelo. Ainda não sei o que isso significa.

Por Rafi Mercer

Ninguém nos marcou as marcas no sulco de saída.

Aquele último anel de um disco — o «dead wax», a faixa em branco entre a última faixa e o rótulo — era, antes de mais nada, uma necessidade técnica. O braço tem de pousar em algum sítio quando a música pára. Fica ali a seguir um silêncio que não é bem silêncio, um pulso suave e repetitivo a cada 1,8 segundos, até que alguém se levante. Nessa faixa, os engenheiros de gravação gravaram o que precisavam de gravar: números de matriz, identificadores de laca, códigos de fábrica, todo o pequeno aparato burocrático necessário para produzir um objeto em grande escala. Qual o corte, qual o molde, qual o lado. Questões administrativas.

Alguns deixaram a sua assinatura. Outros gravaram uma palavra, uma piada, um nome que não significava nada para quem não estivesse naquela sala. Nada disso se dirigia a quem quer que fosse. Era uma fábrica a falar com outra fábrica, num local onde presumiam que ninguém estivesse a observar.

É isso que vemos agora, obviamente. Um colecionador pega num exemplar, inclina-o sob uma lâmpada, lê a inscrição no final do disco antes de ler a capa e sabe, no espaço de um ou dois anos, quando é que aquele disco em particular saiu da prensa. A informação não foi colocada lá para ser encontrada. Foi colocada lá para ser útil. E depois o tempo fez o que o tempo faz às coisas úteis, ou seja, fez com que passassem a significar algo completamente diferente.

Tenho vindo a pensar nisso há uma semana, por motivos que só se tornaram claros quando as caixas foram seladas.

Hoje sai mais uma encomenda de livros. É a quarta tiragem de *The Luxury of Listening*. Fiz pequenas alterações na capa — do tipo que passam despercebidas, que quem comprar o livro pela primeira vez nem sequer notará. O laranja continua a ser o mesmo laranja. O círculo ainda lá está, desenhado com traços finos, no lugar onde ficaria um disco.

E agora há um ponto.

Dois, na verdade. Um no centro do círculo, onde fica o orifício do eixo, que é a única parte de um disco que não contém música e a única parte sem a qual ele não pode girar. E outro no título, inserido entre «Luxury» e «of», pequeno, amarelo e ligeiramente deslocado.

Não é um ponto final. Não pode ser. Um ponto final que surge no meio de uma frase deixa de funcionar como sinal de pontuação — o olho regista-o, espera que a frase termine e, mesmo assim, a frase continua. O que se obtém, em vez disso, é uma pausa incorporada numa linha que não faz pausa. Não tive a intenção de apresentar um argumento na capa. Mas isso é um argumento, e acontece que é o do livro.

Porque amarelo? Não saberia dizer. O otimismo é a resposta mais fácil e não confio nela, porque o otimismo é uma afirmação e a capa não faz afirmações. O que o amarelo realmente faz em relação àquele laranja é não criar contraste. É quente sobre quente. Não sinaliza nem interrompe. Fica ali e brilha ligeiramente, da mesma forma que uma luz deixada acesa numa casa brilha quando passas por ela numa noite fria — sem te chamar a atenção, sem ser de forma alguma para ti, apenas como prova de que o local está ocupado.

O vermelho teria sido um aviso. O branco teria sido um buraco. O amarelo é o único que dá a entender que está habitado.

Eis a parte que não tinha planeado e que só percebi depois. Agora já é possível datar o livro.

Quarta tiragem, ponto amarelo. A próxima tiragem não será amarela — ainda não sei qual será, e prefiro não decidir demasiado cedo. Mas já são duas tiragens. Duas tiragens passam a ser três. E, a dada altura, sem que ninguém seja informado, um exemplar deste livro conterá uma informação sobre a sua própria circulação que nada tem a ver com o que está impresso no seu interior.

O que é algo estranho de se ter criado, porque um livro não é um objeto fixo e nunca o foi. É essa a grande diferença entre um livro e um ficheiro. Um ficheiro fica onde o colocamos. Um livro é emprestado a um colega e não é devolvido. É guardado numa caixa durante uma mudança e reaparece três anos depois numa cidade diferente. É esquecido num comboio, vendido a uma loja por uma ninharia, comprado novamente por alguém que não faz ideia de quem foi o seu primeiro dono. É oferecido — e isto é o mais importante — entregue num aniversário, numa despedida ou sem motivo algum, com as impressões digitais de quem o oferece na capa e uma frase na primeira página, se for do tipo de pessoa que escreve nos livros.

De tudo o que foi impresso até agora, não faço ideia de onde está praticamente nada. Sei quantos exemplares foram distribuídos. Não faço ideia de por quantas mãos passaram desde então. Isso costumava parecer-me uma lacuna nos dados. Começo a achar que é precisamente essa a questão.

Porque, neste momento, há duas perguntas disponíveis e apenas uma delas é interessante.

Quantos pontos tens?

Quantos pontos é que ofereceste?

A primeira é uma questão de colecionador e não há nada de errado nisso — colecionar é um verdadeiro prazer e não vou fazer cara feia por causa disso. Mas ela conta objetos, e os objetos ficam parados. A segunda questão conta outra coisa. Conta a distância. Conta o número de vezes que alguém pensou noutra pessoa e escolheu isto em vez de algo mais fácil. Não se consegue comprar um número elevado na segunda questão. Só se pode passar as coisas adiante.

É isso que as marcas na parte em branco do disco representam, se pensarmos bem. Não é o valor. É a circulação. Onde é que uma coisa esteve, mais ou menos quando, e, portanto, a distância que já tinha percorrido antes de chegar até ti.

Não vou explicar o ponto. Não haverá nenhuma página no site a decifrá-lo, nem chave, nem legenda, nem qualquer indicação de qual a cor que corresponde a cada série. No momento em que essa página existir, o ponto deixa de funcionar — torna-se um artifício de marketing, e toda a gente consegue perceber um artifício de marketing do outro lado da sala. O que dá peso a um sistema acidental é precisamente o facto de ninguém ter sido instruído a dar-lhe importância. Os engenheiros que riscavam números na borda final não estavam a criar romance. Estavam a fazer o seu trabalho, mal iluminados, no final de um turno.

Então, vou fazer o mesmo. Imprimir. Fechar as caixas. Deixar que a terceira ou quarta cor me diga qual foi a primeira.

Alguém acabará por descobrir. Há sempre alguém que o faz — há sempre uma pessoa, por cada sistema, paciente e um pouco obsessiva, que repara que o exemplar que tem na sua prateleira e o exemplar que o seu amigo tem na prateleira não são exatamente iguais. Essa conversa vai acontecer sem mim, numa sala onde nunca estarei, e provavelmente só ficarei a saber disso anos mais tarde, se é que alguma vez fico a saber.

Até lá, as caixas são enviadas hoje e o ponto não significa nada.

O braço ainda está na fase de preparação. Aquele pulso suave, a circular. Sob a agulha, onde ninguém a colocou por ti, uma pequena marca que não se consegue ouvir.


O que significa o ponto amarelo na capa?

Ainda nada. É uma marca na quarta tiragem de *The Luxury of Listening*, e o seu significado depende inteiramente do que vierem a conter a quinta e a sexta tiragens. Volte a perguntar daqui a um ano.

Como posso saber a que tiragem pertence o meu exemplar?

Olha para a capa. É esse o sistema na íntegra, e foi deliberadamente não registado em mais nenhum outro sítio.

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