O Kissa em Casa
Sobre cozinhas, amigos íntimos e o mundo que não está a observar
I Tenho andado a pensar no quarto.
Não é uma sala para onde se vai. Não é um bar, nem um local de espetáculos, nem um sítio com política de entrada e lista de reservas. É a sala que já tens. Aquela com o gira-discos no canto, as boas colunas que demoraste tanto tempo a escolher e a luz que cria um efeito especial ao início da noite, quando deixas de fingir que tens outro sítio onde estar.
Os kissaten no Japão compreenderam algo que a maior parte do mundo esqueceu. Que o ato de ouvir — ouvir de verdade, com toda a atenção, na companhia de pessoas que estão a fazer o mesmo — não requer uma instituição. Requer intenção. Algumas cadeiras dispostas da forma correta. Um disco escolhido com cuidado. A decisão, tomada em silêncio, de que, durante os próximos quarenta minutos, nada mais importa.

Tenho pensado em como é que isso se traduz em casa. Uma mesa de cozinha que se transforma numa mesa de jantar, que por sua vez se transforma numa sala de audição. Um ou dois amigos íntimos. Algo a cozinhar. Um disco a tocar antes de alguém chegar, para que a sala já tenha um ambiente acolhedor quando a porta se abrir. O mundo a não assistir — ou talvez a assistir mais tarde, quando tudo tiver acabado, quando aquilo já tiver acontecido e sido real da forma como só as coisas não representadas são reais.
Se isto se vai tornar uma coisa — uma coisa a sério, do tipo que tem um nome, um formato e, eventualmente, seguidores —, sinceramente, não sei. Sinto que é importante preservar essa incerteza. No momento em que se concebe algo para um público, isso muda. No momento em que se encena a intimidade, esta deixa de ser íntima. O «kissa» caseiro só funciona se começar por ser algo que se faria de qualquer forma, quer alguém já tenha ouvido falar disso ou não.
Mas continuo a voltar a pensar nisso. O jantar na cozinha. O disco no gira-discos. Aquela atmosfera especial de atenção que uma pequena sala cheia de pessoas que decidiram ouvir consegue criar.
Pode ser alguma coisa. Ou pode ser apenas uma noite de terça-feira.
Ambos parecem estar bem.
Será que isto está a tornar-se um evento do «Tracks & Tales»? Talvez sim. Talvez não. Neste momento, é uma ideia que vale a pena explorar em privado antes de decidir se deve ser partilhada publicamente. O Clube de Audição é onde estas conversas têm lugar pela primeira vez.
O que é um «kissaten»?
Um «kissaten» é um bar de audição japonês — um espaço dedicado à audição de música com atenção e sem distrações, onde o proprietário seleciona e reproduz discos em equipamento de alta qualidade enquanto os clientes ouvem, muitas vezes num silêncio quase total. Oguia de Tóquio apresenta alguns dos melhores exemplos do mundo.
O que é um «kissa» caseiro?
A prática de transpor a filosofia do «kissaten» para um ambiente doméstico. Não é necessário um local específico — basta um gira-discos, boas colunas, um pequeno grupo de pessoas dispostas a ouvir com atenção e a decisão de tratar a música como o evento principal, em vez de apenas um pano de fundo.
O que devo jogar?
Qualquer coisa que mereça a nossa atenção.As críticas ao álbum «Tracks & Tales» são um bom ponto de partida.
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Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais histórias da rubrica «Tracks & Tales», subscrever ou clique aqui para saber mais.