As Escadas dos Fundos
Por que é que o «Listening Club» nunca foi concebido para ser um palco — e o que uma escadaria da escola me ensinou sobre a escala.
Por Rafi Mercer
O ruído chegava sempre de longe. Duas curvas num corredor e uma porta corta-fogo que nunca fechava bem; e, quando chegava até mim, já se tinha atenuado, transformando-se em algo que eu conseguia perceber. Passos lá em cima. Uma porta algures lá em baixo. Uma voz que percorria todo o comprimento do corredor inglês e mudava de tom ao contornar a curva.
Havia uma escadaria na minha escola que conduzia àquele corredor. Lembro-me dela com mais clareza do que da maioria das salas de aula.
![]()
Não era nada grandioso nem importante. Não era um lugar que alguém devesse notar. Uma escadaria secundária, um pouco afastada do fluxo principal da escola. Nos intervalos, às vezes sentava-me ali.
Há uma certa ironia no facto de isso ter levado ao inglês, porque o inglês não era uma área em que me sentisse especialmente à vontade. Antes de saber ler e escrever bem, já era a mesma pessoa que sou agora. Não era menos inteligente. Não tinha menos pensamentos. Simplesmente, nem sempre conseguia traduzi-los na forma que o mundo parecia exigir.
A escola foi construída em torno de normas. Lê isto. Escreve aquilo. Senta-te aqui. Fala agora. Compreende as regras, incluindo aquelas que ninguém explica.
Achei grande parte disso difícil, mas não porque não tivesse noção do que se estava a passar. Provavelmente era precisamente o contrário. Estava demasiado ciente de tudo.
Conseguia perceber a tensão entre as pessoas. Conseguia sentir as alianças, os jogos, as pequenas mudanças de tom. Conseguia perceber quando alguém queria dizer outra coisa que não aquilo que dizia. O mundo normal parecia cheio de movimento e de intrigas, tudo a acontecer ao mesmo tempo. As outras pessoas pareciam capazes de entrar nesse mundo sem pensar duas vezes. Eu também conseguia entrar, mas isso custava-me algo.
Então, encontrei as escadas das traseiras.
Ficar ali sentado era a minha forma de obter permissão para ser como toda a gente, por um momento. Ninguém me tinha dado formalmente essa permissão. Tinha sido eu a criá-la para mim próprio. Podia ficar à margem da corrente principal e ouvir a escola a funcionar sem ter de participar em tudo o que se passava.
Daquela escadaria, o mundo tornou-se mais fácil de lidar. Algures, alguém se riu. Noutro lugar, um professor pediu silêncio. O edifício tinha o seu próprio ritmo e, assim que deixei de tentar acompanhá-lo, consegui ouvi-lo devidamente.
Ali, o tempo pareceu abrandar.
Na altura, não tinha palavras para descrever nada disto. Não teria chamado a isso «ouvir». Não teria chamado a isso «controlar-me», «encontrar a calma» ou «afastar-me da sobreestimulação». Só sabia que me sentia melhor naquelas escadas do que no meio de tudo.
Às vezes, havia pessoas que vinham à minha procura.
Também me lembro disso. Havia algo de encantador em ser encontrada. Não ser arrastada de volta para o barulho, não ser questionada sobre o motivo de lá estar, mas simplesmente ter companhia. Alguém sentava-se ao meu lado por um bocado e a escadaria transformava-se num pequeno espaço partilhado, em vez de um lugar para onde eu tinha ido sozinha.
Ninguém precisava de fazer grande coisa.
Talvez tenha sido esse o início de algo que só recentemente comecei a compreender. Às vezes, basta apenas ouvir. Pode ser o suficiente.
Vivemos num mundo em que o valor é medido pela atividade. Espera-se que respondamos, contribuamos, expliquemos, tenhamos um bom desempenho, reajamos e sigamos em frente. O silêncio deixa as pessoas desconfortáveis, porque dá a impressão de que nada está a acontecer.
Mas algo está a acontecer.
Quando ouvimos, o mundo torna-se mais vasto. Percebemos o que tinha ficado oculto pela agitação. Ouvimos a sala, a pessoa ao nosso lado, o espaço entre um som e o seguinte. Começamos a compreender que a própria atenção é uma forma de generosidade.
Aprendi isso muito cedo, embora não soubesse que estava a aprender.
O «Listening Club» começou sem nenhuma grande teoria. Não estava a tentar criar uma plataforma de comunicação social nem a conceber algo para o maior público possível. Estava a fazer o que sempre fiz: encontrar algo que valesse a pena ouvir, parar por um momento e, talvez, convidar mais uma pessoa para se sentar comigo.
Podia ter sido a minha mulher. Podia ter sido o meu melhor amigo. Podia até ter sido o Oban, que sempre demonstrou um entusiasmo surpreendente pelo jazz e pelas batidas lentas.
Isso bastou.
A dificuldade surgiu mais tarde, quando os números entraram na sala.
Assim que as pessoas começam a chegar, é fácil começar a perguntar-se quem mais poderá aparecer. Alarga-se o leque musical. Começa-se a questionar as próprias escolhas. Imagina-se um público e, em seguida, procura-se satisfazê-lo. Sem dar por isso, passa-se de ouvir para programar.
A questão que se coloca é: quem é que virá se eu escolher este álbum?
Essa nunca foi a pergunta inicial. A pergunta inicial era: o que acontece se eu parar aqui e ouvir?
A maioria dos meios de comunicação baseia-se na ideia de que quanto mais pessoas, melhor. Mais alcance, mais visualizações, mais atenção, mais dimensão. Talvez o Listening Club não precise de se comportar como a maioria dos meios de comunicação.
Talvez bastasse uma pessoa.
Uma pessoa, uma hora, um momento de atenção partilhado.
Aquilo não é uma versão mais pequena da sala. É a própria sala.
Se mais uma pessoa parar o que está a fazer e ouvir com atenção, então algo verdadeiro aconteceu. Durante uma hora, o tempo mudou de forma. As exigências habituais foram suspensas. Não se pediu a ninguém que atuasse. Ninguém precisou de acompanhar o ritmo.
Alguém ficou simplesmente sentado nas escadas durante algum tempo.
Talvez seja isso que tenho vindo a construir desde o início, sem me aperceber bem disso. Não é um palco. Não é uma transmissão. Não é uma plataforma concebida para agradar a toda a gente.
Uma escadaria lateral.
Um lugar um pouco afastado do corredor principal, onde o barulho chega até nós de forma diferente. Um lugar onde alguém se pode sentar sozinho sem se sentir abandonado e onde, de vez em quando, outra pessoa pode vir e encontrá-lo.
Ainda me lembro daquelas escadas da escola porque me deram algo que não conseguia encontrar em mais lado nenhum. Deram-me uma forma de permanecer no mundo sem me sentir oprimida por ele. Ensinaram-me que afastar-me não era o mesmo que desaparecer. Era uma forma de regressar a mim mesma.
Hoje sinto-me mais próximo deles do que nunca. Talvez seja porque agora compreendo o que eles representavam. Não era apenas um sítio onde ia durante o intervalo. Era o início de uma vida construída em torno da escuta.
E talvez o que se deva fazer agora seja simplesmente continuar a disponibilizar esse espaço.
Escolher o disco. Acalmar o ambiente. Ficar ali sentado o tempo suficiente para que outra pessoa o descubra.
E, quando o fizerem, não lhes pedir mais nada.
Vem sentar-te aqui um bocadinho.
Não precisa de falar.
Quantas pessoas devem participar numa sessão de audição?
Uma é suficiente. Uma sessão não se mede pela assiduidade, mas sim pelo facto de essa hora ter realmente mudado de significado para quem nela participou. Tudo o que for para além disso é apenas essa mesma hora, repetida.
O que acontece, na verdade, numa sessão do Clube de Audição?
Um álbum, escolhido antecipadamente, reproduzido na íntegra, com um grupo reunido à sua volta. Ninguém é obrigado a falar, a contribuir ou a atuar. É o álbum que preenche a hora.
Preciso de um sistema de alta fidelidade ou de uma coleção de discos para participar?
Não. A cultura da audição é frequentemente descrita em termos de equipamento, mas o equipamento não é o que importa. O que importa é que se pare, que se dedique todo o tempo necessário à música e que nada mais esteja a disputar a sua atenção.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais artigos da rubrica «Tracks & Tales», subscreva.
Todos os meses, o The Listening Club reúne-se em todo o mundo. Inscreve-te aqui.