O custo de pensar em grande

O custo de pensar em grande

Como fazemos avançar a prática da escuta

Por Rafi Mercer

Tenho vindo a refletir, ultimamente, sobre a razão pela qual as ideias ambiciosas costumam deixar as pessoas desconfortáveis. Normalmente, não é porque acreditam que a ideia seja impossível. Na maioria das vezes, é porque a ideia desafia, de forma discreta, aquilo que nos parece normal.

No momento em que começamos a falar sobre construir algo que vai além das nossas circunstâncias atuais, já não estamos a descrever o mundo tal como ele é. Estamos a descrever uma versão do futuro que só existe na nossa imaginação. É nessa lacuna entre o que existe hoje e o que poderá existir amanhã que a dúvida surge naturalmente. Não só nos outros, mas também em nós próprios.

É compreensível. Todos nós avaliamos o futuro através da perspetiva do presente. Olhamos para a situação atual e, instintivamente, partimos do princípio de que amanhã será mais do mesmo. No entanto, a história, em particular a história da música, raramente se desenrola dessa forma.

Os artistas cuja obra continua a moldar a cultura décadas mais tarde raramente se contentavam com os limites aceites da sua época. Miles Davis recusava-se a gravar o mesmo disco duas vezes, avançando constantemente em direção a sons para os quais muitos ouvintes só estariam preparados anos mais tarde. David Bowie encarava a reinvenção como um modo de vida, nunca permitindo que o sucesso se tornasse uma desculpa para ficar parado. Brian Eno imaginava o estúdio de gravação como um instrumento por direito próprio, alterando a forma como inúmeros discos viriam a ser gravados.

Nenhuma destas pessoas pensava de forma diferente apenas pelo simples facto de querer ser diferente. Seguiam uma ideia que ia além do que todos os outros conseguiam ver naquele momento. A sua ambição não se baseava na certeza, mas sim na curiosidade. Estavam dispostas a explorar possibilidades que ainda não se tinham tornado óbvias.

Percebi que existe uma distinção importante entre confiança e visão. A confiança é muitas vezes confundida com a crença de que já se sabe a resposta. A visão é algo completamente diferente. A visão é a vontade de fazer uma pergunta cuja resposta ainda não existe. É a convicção silenciosa de que o futuro pode reservar algo mais vasto do que as evidências atuais sugerem.

Essa forma de pensar pode parecer desconfortável, porque exige que se conviva com a incerteza. Não há garantias. São muito poucas as pessoas que nos apoiam nas fases iniciais. A maioria das ideias ambiciosas parece irracional precisamente porque ainda não tiveram a oportunidade de provar o seu valor.

Já passei por isso com o Tracks & Tales. A ideia de criar um guia global sobre a cultura da audição, ligando cidades, locais, álbuns e pessoas através da experiência partilhada da música, parecia extremamente otimista quando surgiu pela primeira vez. Milhares de cidades. Centenas de países. Várias línguas. Uma comunidade baseada em abrandar o ritmo, em vez de o acelerar. No papel, ainda parece ambicioso.

No entanto, todos os dias há mais uma pessoa que descobre o site. É publicada mais uma cidade. Junta-se mais um membro. Inicia-se mais uma conversa algures no mundo porque alguém parou o tempo suficiente para ouvir.

O extraordinário tem o hábito de surgir discretamente. Raramente se manifesta em momentos dramáticos. Na maioria das vezes, vai-se construindo através de centenas de pequenas decisões, repetidas pacientemente ao longo do tempo, até que, um dia, as pessoas começam a descrever como inevitável algo que outrora parecia irrealista.

Talvez seja por isso que pensar em grande gera tensão. Exige que as pessoas imaginem um futuro antes de haver provas suficientes para acreditar nele. Para alguns, isso é emocionante. Para outros, é desconfortável. Ambas as reações são perfeitamente naturais.

Mas se a história nos ensina alguma coisa, é que as pessoas que deixam a marca mais profunda na cultura raramente são aquelas que aceitaram os limites do que parecia possível. Elas imaginaram algo para além do horizonte e continuaram a caminhar nessa direção muito antes de qualquer outra pessoa conseguir ver o destino.

Talvez seja esse o verdadeiro ato de criatividade.

Não se trata apenas de criar algo novo.

Mas acreditar que isso pode existir antes que o resto do mundo acredite.


Perguntas frequentes

Por que é que as ideias ambiciosas costumam deixar as pessoas desconfortáveis?

As ideias ambiciosas desafiam a nossa noção do que é normal. Levam-nos a imaginar um futuro que ainda não existe, o que pode gerar incerteza. Ao longo da história, muitos dos maiores avanços criativos foram inicialmente recebidos com cepticismo, porque ultrapassavam as expectativas geralmente aceites.

O que é que os grandes músicos nos ensinam sobre pensar de forma diferente?

Artistas como Miles Davis, David Bowie e Brian Eno raramente se repetiam ou seguiam caminhos convencionais. A sua vontade de explorar novas ideias, assumir riscos criativos e imaginar possibilidades para além das tendências atuais serve para nos lembrar que um impacto cultural duradouro começa, muitas vezes, com um pensamento não convencional.

Como é que a Tracks & Tales aborda a criatividade e a escuta?

A «Tracks & Tales» assenta na convicção de que ouvir é uma forma ativa de interagir com o mundo. Ao explorar a música, as cidades e a cultura através de uma atenção cuidadosa, em vez do consumo constante, a plataforma incentiva os leitores a abrandar o ritmo, a refletir mais profundamente e a descobrir novas perspetivas através do som.


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