O dia em que percebi que as pessoas estão a aprender a ouvir de novo

O dia em que percebi que as pessoas estão a aprender a ouvir de novo

Uma reflexão tranquila sobre os Beolab 8s, velhos discos de música ambiente, o lento declínio do streaming passivo e uma suave sensação de que as pessoas estão a tentar aprender a ouvir novamente — juntas.

Por Rafi Mercer

O dia de hoje começou num pequeno café — daqueles sítios onde ainda se sente um leve cheiro a madeira velha e a pastéis quentinhos. Tínhamos acabado de instalar um par de Beolab 8 e, quando dei um passo atrás e ouvi aquela primeira nota grave a ecoar pela sala, senti algo dentro de mim a contrair-se e depois a relaxar novamente. Foi um momento breve, mas pareceu-me um sinal: o som ainda é importante para as pessoas, mesmo que elas se tenham esquecido de como o apreciar.

No caminho para casa, não parava de pensar no streaming. Na forma como se tornou aquele zumbido de fundo interminável — prático, sim, mas, de alguma forma, vazio. A maioria das plataformas foi concebida para ser ruído passivo, não para se ouvir. E não conseguia livrar-me da sensação de que as fissuras estão a começar a aparecer. Estas coisas acabam rapidamente quando chegam ao fim. O Myspace não foi desaparecendo aos poucos — desapareceu de repente. E o Spotify… bem, quando algo esquece o seu propósito, o mundo segue em frente discretamente.

Mas não era esse o verdadeiro pensamento que me incomodava.
Era isto: por baixo de todo o barulho da vida moderna, algo antigo está a tentar regressar.

Talvez tudo tenha começado ontem à noite, quando peguei na minha cópia surrada do «Give Peace a Dance Vol. 2». A capa está gasta, os cantos amolecidos. Um disco que já segurei mais vezes do que consigo contar. A primeira faixa — «Change», dos LFO — ainda me atinge como uma memória que nem sabia que tinha esquecido. Um mundo em quatro minutos. Uma lembrança de que a música costumava ser algo que segurávamos fisicamente, e não algo por que passávamos rapidamente.

E não sei porquê, mas enquanto ouvia, não parava de pensar: as pessoas estão à procura de um caminho de regresso.
De regresso à presença.
De regresso ao significado.
De regresso à sensação de merecer o momento em que a agulha desce.

Até os números desta manhã pareciam fazer parte do mesmo padrão — 200 000 impressões no GSC. Pequenos sinais de que milhares de pessoas estão ativamente à procura de formas de voltar a dar importância ao som. Não para fugir do mundo, mas para sentir algo real dentro dele.

E talvez seja por isso que a ideia das mixtapes continua a surgir na minha cabeça.
Não são playlists.
São mixtapes.

Aquelas coisas desajeitadas e lindas que criávamos para alguém — um amigo, uma paixão, uma versão de nós próprios em que esperávamos vir a tornar-nos. Uma mixtape não tinha a ver com perfeição. Tinha a ver com a intenção. Era como dizer: «Isto era importante para mim, por isso estou a dar-te isto.»

Isso faz-me pensar:
Se hoje entregasse um álbum a alguém — um objeto real, com peso —, qual seria?
E com quem gostaria de partilhar essa primeira audição?

Talvez seja essa a pergunta que todos devêssemos fazer com mais frequência.
Porque ouvir sempre foi um ato partilhado, mesmo quando feito em silêncio. Cada um de nós ouve de forma diferente — e, de alguma forma, é isso que importa. É isso que o torna humano.

Por isso, hoje, se puderes, pergunta a alguém próximo de ti:
Qual seria o teu álbum para ouvir? Aquele que gostarias de ter nas mãos, de ouvir e de partilhar com alguém que te é importante?

Por vezes, as perguntas mais simples abrem as portas mais importantes.


Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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