O Primeiro Álbum — Onde a Jornada Começa de Verdade

O Primeiro Álbum — Onde a Jornada Começa de Verdade

Não é a ponte, nem a chegada — é a origem

Por Rafi Mercer

Quando se começa algo, existe a tentação de ir ao encontro das pessoas tal como elas são.

Para suavizar as arestas.
Para optar pelo que nos é familiar.
Para acolher o ouvinte com delicadeza, de modo a que nada pareça deslocado.

Senti essa atração.

«Modal Soul», de nujabes, estava ali, silenciosamente persuasiva.
Fazia sentido. Parecia certo. Era acolhedora.

Mas quanto mais refletia sobre a ideia de um primeiro álbum — não um álbum qualquer, mas aquele que define tudo o que se segue —, mais me apercebia de algo desconfortável.

Não se começa uma viagem estando no meio dela.

Começa-se pela fonte.

Porque o primeiro «Álbum do Mês » não é apenas uma apresentação.

É uma posição.

E se o «Tracks & Tales» vai representar alguma coisa — se vai ter algum significado num mundo que, em grande parte, deixou de ouvir —, então o primeiro passo tem de ter peso.

Não em volume.

Na verdade.

Voltei a analisar os números, mas, desta vez, não estava à procura de popularidade. Estava à procura de orientação.

E lá estava aquilo outra vez.

Não apenas como um disco de grande sucesso, mas como um sinal que continuava a surgir, discretamente, de forma constante.

Lugares e espaços.

Donald Byrd.

Um álbum que não se apresenta como importante — mas que se torna importante à medida que o ouvimos com mais atenção.

É isso que este álbum tem de especial.

Isso mexe-se.

Não da forma como normalmente se espera que o jazz evolua — introspetivo, complexo, em busca —, mas sim para o exterior. Rítmico. Aberto. Quase coloquial.

Consegue transmitir ritmo sem perder a inteligência.
Consegue transmitir acessibilidade sem perder profundidade.

E, ao fazê-lo, consegue algo que poucos álbuns conseguem:

Convida-te a entrar e, ao mesmo tempo, ensina-te.

Sem nunca te dizer que está a fazer nenhuma das duas coisas.

Há uma certa generosidade nisso.

A sensação de que não se trata de música que está a ser tocada para ti, mas sim de algo que está a ser partilhado contigo.

E isso é importante.

Porque se todo este projeto tem a ver com redescobrir como ouvir — ouvir de verdade —, então o primeiro álbum tem de ser mais do que apenas soar bem.

Tem de mostrar às pessoas o que é a sensação de ouvir.

Não totalmente.

Mas, sinceramente.

Dá para perceber isso nas linhas de baixo — constantes, firmes, pacientes.
Dá para perceber isso nos metais — expressivos, mas nunca excessivos.
Dá para perceber isso no espaço entre as notas — a parte que a maioria das pessoas não repara.

É aí que está a lição.

E é por isso que isto é apenas o começo.

Não porque seja o disco mais famoso.
Não porque seja o mais fácil.

Mas porque se situa no ponto em que tudo começa a interligar-se.

O jazz transforma-se em groove.
O groove transforma-se em movimento.
O movimento transforma-se em cultura.

A partir daqui, pode viajar para qualquer lugar.

Para a frente, em direção ao hip-hop.
De lado, em direção ao soul.
Para fora, em direção à cultura dos sound systems.

Mas não se deve saltar este passo.

Porque é aqui que a fundação está sediada.

E as fundações não fazem barulho.

Dão-se a sentir.

Assim, quando a agulha toca pela primeira vez — quando a sala fica em silêncio, quando o sistema respira, quando a voz surge na medida certa para orientar, mas sem dominar — é aí que tudo começa.

Não no meio.

Na fonte.

E se continuares a dedicar-te a isso — se lhe deres o tempo que é necessário —, vais começar a perceber que algo está a mudar.

Não é só na música.

Em ti mesmo.

É isso mesmo.

Foi sempre essa a questão.

Perguntas frequentes

Porque começar com «Places and Spaces» em vez de um álbum mais moderno?
Porque este álbum está na origem de muito do que se seguiu. Consegue um equilíbrio entre o groove, a acessibilidade e a mestria musical — tornando-o a base ideal para compreender a cultura musical moderna.

Este álbum é adequado para quem está a dar os primeiros passos no jazz?
Sim — é um dos álbuns de jazz-funk mais acessíveis de sempre. Em vez de intimidar, convida à escuta, o que o torna um ponto de partida perfeito.

O que torna Donald Byrd importante para a cultura musical atual?
Ele estabeleceu uma ponte entre o jazz, o funk e o soul de uma forma que influenciou diretamente o hip-hop e a produção musical moderna. O seu trabalho liga gerações de som.

Como devo ouvir este álbum?
Devagar e com atenção. De preferência em vinil, num espaço onde possas dedicar-lhe toda a tua atenção — mesmo que seja apenas um lado de cada vez.

O que se segue a este álbum na jornada do Tracks & Tales?
A partir daqui, o caminho expande-se — rumo ao hip-hop, ao ambient e à cultura dos sound systems. Mas tudo se constrói a partir desta base.

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Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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