A Quarta Ordem

A Quarta Ordem

Doze exemplares, quatro tiragens e um livro que reclamei antes mesmo de o ter escrito

Por Rafi Mercer

Esta semana, fiz mais uma encomenda de impressão do livro *The Luxury of Listening *. Tive de contar para trás para perceber que era a quarta. Não é modéstia — eu realmente não sabia. Acontece nos intervalos entre outros trabalhos e nunca, sequer uma vez, tomei nota disso.

Foram vendidas doze cópias, tanto quanto sei.

Pouco, segundo qualquer critério que uma folha de cálculo reconheceria. Mas doze é um número que se pode encarar como pessoas, em vez de dados. Doze pessoas decidiram que valia a pena ter um livro físico sobre a arte de ouvir, pagaram por ele, esperaram por ele e agora têm-no algures numa divisão da casa onde vivem.

Eis a parte que nunca escrevi.

O livro ainda não existia quando afirmei, pela primeira vez, que existia. Havia um título, um argumento que eu vinha a explorar há meses e a convicção pessoal de que merecia ficar registado no papel. Não havia páginas. Ninguém o poderia ter lido. Afirmei que havia um livro porque estava a descrever a forma do que estava a construir, em vez do seu estado, e porque a confiança parecia ser o essencial naquela conversa em particular.

Algumas semanas depois, a Monocle convidou-me para ir lá falar sobre o assunto.

Não foi propriamente pânico. Algo mais frio e mais útil. A distância entre o que eu tinha afirmado e o que conseguia produzir passou subitamente a ter uma data no seu extremo mais distante, e a única opção disponível era colmatá-la. Por isso, acabou por ser escrito — não na ordem em que agora aparece, e não com cuidado no início, mas foi escrito, porque uma frase tinha saído para o mundo e começara a tomar decisões sem mim.

Não quero fazer disso passar por uma jogada inteligente. Não se conseguiu escapar a nada. Foi apresentado um pedido de indemnização, que foi posteriormente pago na totalidade, dentro de um prazo estabelecido por outra pessoa. O convite não recompensou o exagero. Pelo contrário, exigiu o pagamento.

Mas foi assim que a maior parte do «Tracks & Tales» foi construído. Um compromisso assumido um pouco antes de se ter capacidade para o cumprir, seguido do trabalho pouco glamoroso de recuperar o atraso. Diz-se, cumpre-se, mas não se menciona o quão próximos estavam os dois.

O que me impressiona agora é o contraste. Por um lado, um convite de uma revista que lia há anos — uma conversa que alargou os meus horizontes e que ficará na história desta coisa como o momento em que tudo mudou. Por outro lado, doze exemplares e quatro tiragens tão pequenas que a gráfica deve perguntar-se o que é que eu penso que estou a fazer.

Ambas as afirmações são verdadeiras. Nenhuma anula a outra. Os momentos significativos e os números significativos quase nunca coincidem.

O livro trata da atenção — o que muda quando nos dedicamos totalmente a um álbum, em vez de dedicarmos apenas aquele terço de nós que não está a percorrer o ecrã. Seria uma espécie de fracasso estranho escrever isso e depois avaliar o seu valor com base no volume.

Portanto: doze, e encomendei mais uma pequena remessa. A caixa vai chegar, ficar fechada durante um ou dois dias, e não haverá nenhum momento associado a nada disso.

Não faz mal. Esse momento já aconteceu, numa frase que eu não devia ter dito e que depois tive de tornar realidade.


O que é «O Luxo de Ouvir»?

Um pequeno livro sobre a atenção — o que muda quando algo capta toda a tua atenção, em vez de apenas a parte de ti que está a fazer outra coisa. Defende que ouvir é um luxo, não pelo que custa comprá-lo, mas pelo que custa oferecê-lo.

Por que razão tiragens tão pequenas?

Porque a alternativa é uma pilha de exemplares por vender num corredor. As tiragens reduzidas mantêm o livro atualizado, em vez de se ficar preso a uma decisão tomada uma vez e com a qual se tem de conviver durante anos.

O que é o The Listening Club?

Os membros fundadores do Tracks & Tales — um encontro mensal em torno de um disco, reproduzido como deve ser, com contexto e cuidado, além de uma newsletter semanal exclusiva e acesso total à plataforma.


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