O Pequeno Verme que Não Queria Ir Embora — Sobre as Músicas que Nos Acompanham Por Todo o Lado

O Pequeno Verme que Não Queria Ir Embora — Sobre as Músicas que Nos Acompanham Por Todo o Lado

Por Rafi Mercer

Algumas manhãs começam com um propósito. Outras chegam com uma espécie de travessura — uma melodia que se infiltrou na tua mente antes mesmo de estares acordado o suficiente para a perceber. Hoje foi uma linha de baixo que surgiu do nada, repetindo-se com a confiança descontraída de algo que sabia que iria vencer. Um verme auditivo. A tirania suave de uma melodia que decide que serás o seu hospedeiro durante as próximas doze horas.

São sempre aquelas que parecem tão simples. Uma mudança de acordes que brilha na medida certa. Um fragmento de um refrão que nem sequer te agradou quando o ouviste pela primeira vez. Um gancho que chega a ser quase embaraçoso de tão cativante que é. Aparecem como gatos vadios: sem serem convidados, indiferentes e absolutamente certos de que vão ficar.

A ciência diz-nos que se trata de imagens musicais involuntárias — a tendência do cérebro para se fixar em padrões, repetições e melodias com contornos bem definidos. Os psicólogos afirmam que estas «músicas» tendem a ser melodias que se situam numa «zona de conforto» para a memória: nem demasiado complexas, nem demasiado triviais, ritmicamente organizadas e fáceis de memorizar. O que é uma forma educada de dizer: suficientemente cativantes para nos perseguirem, mas concebidas com elegância suficiente para que o cérebro não as rejeite.

Mas essa explicação não faz justiça ao encanto da situação.

Uma música que nos toca não é apenas uma melodia. É o estado de espírito, o tempo, a memória e o ritmo a combinarem-se. Uma canção que ouviste uma vez numa longa viagem de autocarro. Um riff que ouviu ontem numa loja por onde passou. Algo ao som do qual a sua versão infantil teria dançado na sala de estar. Surgem em momentos em que a sua mente tem espaço suficiente para que elas se insinhem. A chaleira a soltar vapor. O chuveiro a correr. A espera pelo cão a voltar por uma porta entreaberta. Momentos de transição em que o silêncio se prolonga — e o cérebro decide preenchê-lo.

Se lhe resistires, o verme aperta ainda mais o seu aperto. Põe outra música a tocar e ele abrirá educadamente espaço antes de regressar com um domínio ainda maior. Concentra-te noutra coisa e ele ficará à espera num canto, a cantarolar baixinho, perfeitamente satisfeito. Estes vermes raramente são derrotados pela força. Precisam de uma distração nos seus próprios termos — um passeio, uma conversa, uma tarefa que exija algo diferente dos teus sentidos.

Mas a questão é esta: a maioria das músicas que nos acompanham sem que nos apercebamos não são um incómodo. São pequenas interrupções de alegria. Uma lembrança de que a música ainda exerce poder sobre nós, mesmo nas horas em que não estamos a prestar atenção conscientemente. A melodia que se repete ao longo do dia traz consigo um toque de irracionalidade — aquela parte de nós que reage instintivamente, sem que a tenhamos selecionado cuidadosamente. É um espelho musical que reflete o estado de espírito em que não sabíamos que nos encontrávamos.

A minha escolha de hoje — assim que finalmente a escolhi — foi «Melody Nelson», de Gainsbourg. Um disco com uma linha de baixo que não pede permissão. Talvez tenha surgido porque o pingar da calha de ontem me fez pensar na tranquilidade do domingo. Ou talvez tenha simplesmente voltado a entrar na sala porque algumas melodias decidem que já tiveram tempo de descanso suficiente.

A tua música preferida pode ser diferente. Um sucesso radiofónico dos anos 90. Um refrão disco que voltou à moda no TikTok. Um pedaço de uma playlist lo-fi que ouviste por acaso a sair dos auscultadores de outra pessoa. Música que adoramos, música que toleramos, música que nem nos apercebemos de que tínhamos memorizado — todas têm o mesmo direito de voltar.

O segredo, como aprendi, é não os afastar. Deixa-os cantarolar durante a manhã, senta-te ao teu lado enquanto respondes a e-mails, deixa-os integrar-se no ritmo do dia. Um «verme» que ouve música é, à sua maneira, a prova de uma vida vivida musicalmente — mesmo quando não estás a tentar.

E ao anoitecer, quase por magia, vai-se desvanecendo. Não porque o tenhamos derrotado, mas porque surge outra coisa para o substituir: o som do jantar, um carro que passa com as janelas abertas, a pontuação silenciosa do crepúsculo. A banda sonora muda.

Até que o verme de amanhã acorde primeiro.


Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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