O mapa é a música — Construir um arquivo global de audição
Por Rafi Mercer
Tudo começou discretamente.
Não com um grande plano nem com uma campanha de lançamento. Apenas uma página, um pensamento e uma frase simples que já me andava na cabeça há algum tempo:
Já ninguém ouve — trocámos a nossa atenção por comodidade.
Essa frase foi a semente. Daí surgiu uma pergunta: se a arte de ouvir tinha desaparecido da vida quotidiana, para onde teria ido? Certamente não tinha desaparecido por completo. A cultura raramente desaparece. Ela move-se. Reforma-se. Encontra novos recantos.
Então, comecei a procurar.
No início, o projeto que viria a tornar-se o «Tracks & Tales» parecia modesto. Alguns ensaios. Algumas notas sobre locais onde a música era tratada com carinho. Cafés de vinil em Tóquio. Bares tranquilos com equipamento de alta fidelidade em Berlim. Espaços onde as pessoas se sentavam não para falar por cima da música, mas para a deixar respirar.
Escrevi uma página. Depois, outra.
Surgiram cidades. Surgiram locais. Os álbuns associaram-se a lugares. Seguiram-se ensaios. As reflexões diárias preencheram as lacunas entre eles.
Aos poucos, algo inesperado começou a tomar forma.
Não é um blogue.
Um mapa.
Os mapas são coisas curiosas. Começam por ser marcas isoladas — um rio aqui, uma estrada ali —, mas, a certa altura, essas marcas começam a revelar uma paisagem. Surgem padrões. As distâncias ganham sentido. Percebemos que já não estamos a olhar para fragmentos, mas sim para um mundo inteiro.
Foi assim que a Tracks & Tales cresceu.
Uma página sobre uma cidade torna-se uma porta de entrada. A partir dessa porta de entrada, descobre-se um local. A partir desse local, um álbum. A partir desse álbum, um ensaio sobre a experiência de ouvir música. A partir desse ensaio, talvez um ritual — a forma como alguém, algures, começa a sua noite com um disco e um copo de algo quente.
Pouco a pouco, as páginas começam a relacionar-se umas com as outras.
Tóquio dá-nos a conhecer uma cultura de «kissaten» mais antiga do que a Internet. Berlim revela espaços onde o som é tratado como arquitetura. A Cidade do México transmite um ritmo de discos de vinil a altas horas da noite e de conversas suaves. Hanói murmura silenciosamente junto aos seus lagos, com a música a flutuar pelas portas abertas.
Cada local acrescenta mais uma coordenada ao mapa.
A certa altura, os números também começaram a aparecer. Não de forma ostensiva — surgiram em segundo plano, como passos num corredor.
Visitantes de países onde eu próprio nunca tinha estado. Leitores provenientes de cidades cujos nomes tive de procurar. Um círculo que se ia alargando lentamente, composto por pessoas que pareciam reconhecer o mesmo sentimento: o de que ouvir, quando feito da forma correta, muda a atmosfera de uma sala.
Em breve, o projeto atingirá um pequeno marco.
Dois mil páginas.
Dois mil pequenos tentativas de descrever locais onde o som é importante.
Esse número surpreendeu-me quando reparei que se aproximava. Não porque me parecesse grande, mas porque revelava algo sobre a natureza do trabalho lento. Não se começa com o objetivo de escrever duas mil páginas. Simplesmente, continua-se a voltar à questão. Continua-se a seguir o fio condutor. Continua-se a mapear o território.
Página a página, o arquivo vai-se construindo.
O que mais me interessa neste momento é o que o mapa revela.
A cultura da escuta não está a desaparecer. Está a ressurgir — discretamente — por todo o mundo. As cidades estão a redescobrir o prazer de espaços concebidos para o som. Os viajantes procuram locais onde a música é tratada com cuidado. Os discos de vinil, as cassetes, os sistemas de alta fidelidade e a conversa entre pessoas estão a voltar a partilhar o mesmo espaço.
Parece que o mundo ainda quer ouvir.
Talvez seja por isso que o mapa continua a crescer.
Em breve, haverá mais um pequeno marco neste projeto — o vigésimo quinto milésimo visitante a percorrer as páginas. Um momento insignificante em termos da Internet, mas estranhamente significativo quando se pensa no que essas visitas representam: pessoas que chegam de diferentes partes do mundo para explorar a mesma questão simples.
Onde é que a capacidade de ouvir ainda existe?
Quando comecei este trabalho, pensava que estava a escrever ensaios sobre música. Mas agora parece-me mais correto dizer que tenho vindo a traçar um mapa — uma cidade, uma sala de espetáculos, um álbum de cada vez.
E, tal como qualquer mapa que valha a pena guardar, nunca está verdadeiramente concluído.
Há sempre outro lugar onde a música está a tocar.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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