O mapa sempre esteve lá

O mapa sempre esteve lá

Por Rafi Mercer

Quando comecei o Tracks & Tales, pensei que estava a criar algo em torno da audição.

E era mesmo.
Mas, com o passar do tempo, outra coisa começou a acontecer discretamente por baixo disso.

As pessoas já não vinham apenas pelos álbuns. Nem sequer pelos bares de audição. Vinham de todas as cidades.

Tóquio.
Lisboa.
Osaka.
Melbourne.
Copenhaga.
Baltimore.

Milhares de pesquisas. Milhares de pequenos sinais de pessoas que tentam compreender um lugar através do som.

Acho que, no início, não me apercebi bem disso, mas a plataforma começou, aos poucos, a comportar-se como um guia mundial de cidades. Não no sentido tradicional. Não no sentido de «as dez melhores coisas para fazer». É mais uma orientação emocional. Uma forma de entrar numa cidade através da sua atmosfera, dos seus discos, dos seus cafés, das suas salas de audição, do seu ritmo.

E talvez essa tenha sido sempre a ideia mais profunda que se escondia por detrás de tudo isto.

Porque a música muda a forma como se vive uma cidade.
E as cidades mudam a forma como se vive a música.

O mais interessante é que nada disto foi realmente planeado. Surgiu naturalmente da própria atenção. Uma cidade a levar a outra. Um local a ligar-se a um álbum. Um álbum a ligar-se a uma pessoa noutro lugar do mundo à procura da mesma sensação.

Estou a começar a perceber que o «Tracks & Tales» pode já não se limitar a documentar a cultura da audição.

Pode estar a traçar, aos poucos, a geografia emocional das cidades modernas através do som.

E, sinceramente, isso parece-me mais importante do que eu inicialmente pensava.


Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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